2011-11-16

Produção Musical: DM1, Sunrizer, Bebot e SoundPrism para criar uma música somente com o iPad

Para um músico, compor uma canção pode muito bem ser uma obra do acaso. Diversas ideias e conceitos surgem inesperadamente de momentos despretensiosos, ao tocar um instrumento ou mexer em um software apenas por diversão. O fato de se forçar a compor – e a seriedade envolvida nessa situação – é capaz de prejudicar veementemente o processo criativo. Nesse ponto, o iPad é imbatível: utilizar seus apps musicais sempre parece uma brincadeira, independente de o quão profissional o aplicativo de fato seja. E foi assim, nesse clima lúdico, que surgiu a What’s Like, música inteiramente concebida com o iPad.

DM1 Drum Machine

Tudo começou quando eu estava sequenciando alguns beats na Drum Machine DM1. Sua interface elegante e intuitiva gera um workflow muito interessante, que de nada valeria se os samples não fossem extremamente competentes: kits clássicos como a TR-909 e uma respeitável gama de sons experimentais estão inclusos no aplicativo. O fato de eu poder alterar a duração e o pitch de cada elemento de forma rápida também acelera o workflow. Após meia hora utilizando a DM1, obtive um beat que se destacou entre os demais.

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Essa batida certamente clamava por uma melodia marcante. Graças ao recentemente implementado modo de Audio Background, pude abrir um aplicativo de sintetizador enquanto escutava o beat sequenciado no DM1. Decidi criar a melodia no Sunrizer por sua alta qualidade sonora e vasto leque de bons presets – e certamente não pelo seu teclado, que é pouco responsivo e deveras impreciso. Um controlador MIDI é quase imprescindível para a melhor experiência com o Sunrizer – apenas não o utilizei pelo conceito de produzir a música somente no iPad. Finalizada a melodia, era a hora de transferir esse trabalho para o computador.

Sintetizador Sunrizer para iPad

A melhor opção para inserir os loops da bateria e da melodia no computador e dar sequência ao trabalho é o Ableton Live – sua interface permite a gravação de novos loops em fluxo constante, sem a necessidade de parar a música após as gravações. Houve, entretanto, uma grande surpresa: O loop da DM1, de 120 BPM, não se encaixava com o compasso do Ableton, de 120 BPM. Sim, eu sei: Isso é matematicamente, fisicamente e humanamente impossível, mas misticamente aconteceu. Ao alterar o compasso do Ableton Live para 119.9 BPM, tudo funcionou como deveria. Cada software com sua matemática.

A partir daí, a criação de novos layers para a composição fluiu naturalmente: obtive um surpreendente timbre de baixo com o Bebot em seu modo PWM, utilizando do recurso Cutoff para elminar boa parte das frequências mais altas. Ainda foram criados dois outros layers com o Bebot: uma espécia de Lead-Resposta para a melodia inicial e uma melodia aguda bastante sutil. Uma vez que os três sons obtidos são bastante distintos, é justo considerar que o Bebot possui certa versatilidade, embora ainda deixe muito a desejar em termos de configurações.

Bebot

Ao sentir a necessidade de inserir um pad na composição, não pude me esquecer do SoundPrism. Sua única e peculiar interface, baseada em terças (intervalos musicais), gera raciocínios interessantes que talvez nunca me ocorressem ao tocar guitarra ou teclado. É esse um dos aspectos mais interessantes de apps do iPad: uma expansão de horizontes musicais através de interfaces nunca antes vistas. Utilizei o timbre de fábrica do app, na minha opinião o melhor disponível.

Todos os layers de iPad foram gravados em linha através da interface de áudio Avid Mbox (MIDI não foi usado em momento algum). Após gravar os samples, “montei” a sequência da música desejada no Ableton Live e realizei alguns ajustes de volume. Embora tenha sido extremamente tentador utilizar compressores e plugins para aprimorar os timbres originais e a mixagem em geral, propositalmente os deixei exatamente como soam no iPad. Dessa maneira, podemos analisar melhor o verdadeiro potencial desses aplicativos.

SoundPrism para iOS

Tudo o que você ouve no vídeo é também o que você vê (exceto alguns takes de voz, filmados posteriormente). O processo de looping durou por volta de 15 a 20 minutos, tempo que poderia ser mais curto se eu usasse um controlador midi para tocar o Sunrizer e se o Bebot possuísse um simples fader de volume, por exemplo. Por outro lado, o processo foi agilizado ao utilizar o Korg nanoPad para iniciar e terminar as gravações dos loops no Ableton Live.

No final das contas, a integração do iPad com o computador (e até os controladores) ainda se mostra bastante necessária para produções musicais mais elaboradas. Se por um lado os apps são fantásticos e inspiradores, ainda sinto que não estou próximo de realizar um vídeo inteiro desses apenas com o tablet da Apple. Todavia, estamos apenas começando: com menos de dois anos de existência, o iPad é o instrumentos musical mais recente do universo – e certamente um dos mais divertidos.

* Guilherme Zakka é compositor, guitarrista e publicitário nas horas vagas. (YouTube / Facebook)