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Irreversible: Fabio Ribeiro fala sobre novo EP da Remove Silence e a utilização de iPad e apps musicais no processo de criação

Marcus Padrini agosto 5, 2015 No Comments »

A banda Remove Silence, composta por Ale Souza (baixo, iPad, vocal), Danilo Carpigiani (guitarra, vocal), Fabio Ribeiro (teclados e iPad) e Leo Baeta (bateria), acaba de lançar seu novo EP, “Irreversible”.  O novo trabalho já está disponível para download no iTunes e streaming no Soundcloud.

Na semana passada, postamos o vídeo da faixa que dá nome ao EP. Um dos trechos que mais chamaram a atenção foi a excelente performance com iPads e apps musicais. O EP está cheio de timbres gerados com o iPad! Conversamos com o músico Fabio Ribeiro sobre o novo EP, timbres, processo de criação e utilização de iPads e apps musicais para a produção musical desse novo trabalho.

Abaixo você confere a entrevista e pode fazer isso enquanto escuta o novo EP:

MA: Antes de começamos, gostaria de dizer que é muito animador constatar que temos uma banda Brasileira criando uma sonoridade como a da Remove Silence. Som moderno, timbres excelentes, peso, ótimo equilíbrio entre o eletrônico e os instrumentos tradicionais e bom gosto e bom senso na hora de utilizar efeitos e outros recursos eletrônicos. Tudo funciona a favor da idéia de cada música, sem exageros.

Fabio Ribeiro: Agradecemos pela apreciação! Quando criamos a banda em 2007, nosso principal objetivo foi o de tentar fazer um som realmente diferente do que anda rolando no mercado atualmente, um som que refletisse nossas diversas influências e ainda assim apresentasse personalidade. Seguimos com este objetivo até hoje, é nosso lema.

Viemos de escolas musicais diferentes e a mistura acabou criando um som que muitos consideram único, principalmente no Brasil, onde raras bandas seguem este direcionamento desprendido. Nosso destaque no cenário veio justamente desta aproximação, uma dose de coragem para não seguir rótulos em nenhum aspecto. Sentimo-nos muito lisonjeados ao constatar que a maioria dos comentários da mídia refere-se ao som com palavras como “original” e “inovador”. Não poderia haver resposta mais gratificante.

Melhor ainda é saber que tudo isso nasceu de forma natural e divertida. Este é o som que sempre quisemos fazer, mas nunca pudemos tornar realidade devido às pressões de gravadoras e direcionamentos de terceiros. O Remove Silence para nós é como um grito de liberdade.

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MA: Irreversible, entre álbuns e EPs, é o quarto trabalho da Remove Silence, certo? Quais são as expectativas da banda com o lançamento?

Fabio Ribeiro: Sim, temos dois álbuns (Fade e S.H.A.) e um EP (Little Piece Of Heaven) lançados anteriormente. Mesmo antes do lançamento de Irreversible, pudemos observar uma ansiedade maior do nosso público e da mídia em relação a este novo trabalho. Talvez isto tenha ocorrido devido à troca de formação.

Como nosso som é extremamente “mutante”, a entrada de dois novos integrantes talvez tenha gerado mais curiosidade ainda sobre o que poderia vir agora. Estamos muito felizes com o resultado do single/video que antecedeu o EP. A recepção no Brasil e no exterior foi muito boa! Esperamos que a reação com o EP seja equivalente. Estamos agora nos preparando para os shows de lançamento, que começam a partir de setembro.

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MA: Pelo que já conversamos, dessa vez o processo de composição contou com uma nova ferramenta: o iPad e seus apps musicais. Isso foi algo intencional ou simplesmente aconteceu?

Fabio Ribeiro: Na verdade, já havíamos usado muito o iPad em nosso EP anterior, quando estávamos ainda descobrindo as maravilhas que este dispositivo pode proporcionar. A integração do iPad, já naquela época, ocorreu de forma natural, devido as exclusividades que o sistema oferece. A atração imediata foi inevitável e só cresceu desde então.

Como estamos sempre buscando o “cálice sagrado do som que ninguém ouviu”, o iPad caiu como uma luva, pois trata-se de uma ferramenta musical totalmente diferente das demais. É cativante e altamente inspirador!

#idensity #apesoft #granular #granularmusic #iosmusic #iosmusician #ipad @fabioribeirokb @removesilence

Um vídeo publicado por REMOVE SILENCE (@removesilence) em

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MA: Pelas redes sociais, pude acompanhar um pouco da gravação do novo EP. Lembro-me de ter visto trechos de gravações de cordas, sopros, bateria, teclados e também diversos registros de apps musicais para iOS. Com tantos timbres e ferramentas disponíveis, como são tomadas as decisões sobre o que será virtual ou real na hora de criar os arranjos?

Fabio Ribeiro: Nós praticamente moramos dentro do estúdio. Eu, literalmente, hehe. É nosso laboratório particular, onde o tempo não passa. O experimentalismo é a grande chave de tudo nesta banda. Praticamente tudo o que criamos é resultado de experiências informais com as coisas que temos aqui. Nada é muito planejado, descobrimos o resultado de uma música somente após um bom tempo de desenvolvimento e pós-produção. Normalmente, levamos cerca de um ano para a finalização de um trabalho como este.

Músicas que pareciam ser menos interessantes acabam tornando-se as melhores e o oposto também ocorre. Isto é válido também para a escolha de instrumentos. Colocamos o que a música pede, seja o que for. Podemos flertar com instrumentos tradicionais, como fizemos neste EP com as cordas e sopros, ou podemos preencher estas lacunas com sons totalmente diferentes, mas que cumpram o mesmo papel. Também não temos normas sobre quem vai gravar tal instrumento ou quem vai executá-lo ao vivo. Possuímos posições definidas como instrumentistas na banda, mas isto não é de forma alguma uma regra.

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Remove Silence

MA: Sei que a banda está com nova formação. Todos os integrantes gostam de tecnologia musical e utilizam algo do tipo com seus instrumentos?

Fabio Ribeiro: Sim, procuramos músicos que também tivessem esta afinidade, pois isto acabou se tornando um tipo de marca registrada da banda e é um ponto importante para nossa busca por um som diferente. O Danilo Carpigiani, além de guitarra e vocais, também toca sintetizadores ao vivo. O mesmo ocorre com o baixista/vocalista Ale Souza, que além de sintetizadores também usa um iPad nos shows. Nosso novo baterista, Leo Baeta, incorporou agora um Octapad em seu set, através do qual controla seu iPhone com um conector iRig MIDI. Não é possível tocar no Remove Silence sem ter uma boa dose de fixação por tecnologia.

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MA: O vídeo da faixa título “Irreversible”, lançado há alguns dias, vem recebendo muitos elogios. Além da sonoridade, a performance com os iPads chama muito a atenção. Foi a melhor aplicação do apps TC-11 e TC-data que já vi em uma música. Pode falar um pouco sobre a idéia e o processo para criar aquela performance?

Fabio Ribeiro: Obrigado! Esta foi a única faixa do EP que conta com uma menor quantidade de sons do iPad, pois foi basicamente composta ao redor de sintetizadores digitais e analógicos como o KingKorg, MS-2000B, MS-20, ARP Odyssey e os pequenos monotrons.

Todavia, o resultado que obtivemos ao incluir o iPad como destaque na parte central da música foi surpreendente. A sonoridade geral por trás do arranjo vem de um dos meus apps preferidos, o Cyclop da Sugar Bytes. É um dos synths mais “irados” no sistema e se encaixou perfeitamente nesta faixa, com sua agressividade e seu som altamente modulável.

O TC-11 foi executado pelo Ale Souza em sobreposição a estas camadas de Cyclop, para um som mais envolvente. Para a performance ao vivo, decidimos usar o fantástico TC-data para controlar o Cyclop. Além dos inesgotáveis recursos de controle, que são totalmente personalizáveis, o apelo visual que este app oferece é um dos mais cativantes no sistema.

Usamos também alguns clássicos sons de vozes do Fairlight CMI Pro (Peter Vogel Instruments), que contrastam com os sons “vintage” rasgados que ocorrem nas pontes desta música. Gostamos muito do resultado, esta mistura entre o antigo e o novo.

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MA: Em alguma das faixas a utilização do iPads e apps musicais foi fundamental para a composição?

Fabio Ribeiro: Para falar a verdade, o iPad foi fundamental para a composição da grande maioria delas. Acredito que algumas das faixas deste EP simplesmente não existiriam, ou não desta forma, sem a presença do iPad. A faixa inicial – The Waiting – surgiu de uma primeira experiência com o Sliver, de Alex Matheu, sendo processado pelo Turnado da Sugar Bytes através do sistema Audiobus. Algumas camadas de sons do iDensity da ApeSoft foram adicionadas posteriormente.

Este clima de imersão que introduz o EP não poderia ter sido criado desta maneira em outros sintetizadores. O processo de síntese granular é um dos meus favoritos e é negligenciado pelos fabricantes de sintetizadores convencionais. Frequencies, a terceira faixa, foi criada e pré-produzida durante meus experimentos com Audiobus e o Auria ainda no meu iPad 3. Desta vez o Turnado processa o DrumJam (Sonosaurus LLC), no qual toda a estrutura da música foi baseada.

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MA: “Miracle” traz início e fim com uma sequência de timbres sintetizados, além de pads envolventes, efeitos, etc. “Our Song” conta com timbres de bateria eletrônica. Algo dessas faixas veio do iPad?

Fabio Ribeiro: Ambas foram compostas no iPad. Miracle possui uma textura rítmica durante toda sua extensão, criada com o Poly (James Milton), novamente com processamento do Turnado. Esta base inspirou todo o arranjo. As harmonias vieram do Korg MS-20 e do app WaveMapper da PPG. Our Song foi composta com base em uma “song” gerada no app iMPC Pro (Retronyms), com acréscimo de samples provenientes da drum machine do BeatMaker 2 (Intua). O Photophore (Taika Systems Ltd) adiciona texturas no final da faixa.

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MA: Pelo que você me contou, mais de 20 apps musicais foram utilizados no novo EP! (confira lista com links no final do post) Quais se destacaram mais e por quê?

Fabio Ribeiro: Sim, a lista é extensa. Na verdade, algumas músicas que não entraram neste EP contém mais apps ainda. Estamos trabalhando nelas para um futuro lançamento. Nosso som é composto muitas vezes por camadas que se complementam. O resultado é na verdade uma soma de diversas fontes que podem soar como um único “timbre” ou “sonoridade” no contexto de um determinado arranjo. Algumas coisas são colocadas delicadamente, outras são “enfiadas ouvidos adentro”.

Usamos apps de sonoridade ímpar, como o Earhoof (Psicada LLC) e o Portable Dandy (Stephen Hepper), além de alguns já bastante populares como o Nave (Waldorf Music), o Magellan (Yonac Inc) e a excelente drum machine DM1 (Fingerlab). Na maioria das vezes, os apps que mais me atraem no universo iOS são aqueles capazes de gerar ou processar som de forma diferente ou até mesmo impossível de se obter em outros instrumentos e dispositivos. Neste trabalho, eu destacaria o Alchemy em sua versão para iOS e também o WaveMapper, ambos com suas habilidades de glide polifônico através da tela do iPad. Faixas como The Waiting, Frequencies e Miracle não teriam linhas melódicas tão exóticas caso este recurso não estivesse disponível. O MitoSynth (Wooji Juice Ltd) também foi usado desta forma.

Outro app que se tornou indispensável para nós é o Effectrix (Sugar Bytes), usado também na parte central da faixa Irreversible que estávamos discutindo. Todos os canais de bateria do Leo e também alguns dos synths analógicos foram processados pelo Effectrix nesta seção da música, criando nuanças rítmicas e efeitos dinâmicos muito interessantes.

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MA: Na lista estão também Beatmaker 2, Auria e Cubasis. São 3 DAWs para iOS. O uso dos três se justifica por ainda não termos uma solução capaz de funcionar como DAW única para iOS?

Fabio Ribeiro: O sistema iOS ainda não possui seu DAW definitivo. Eu diria que uma combinação entre estes três apps seria o ideal. O Auria Pro, prometido para breve, possivelmente preencherá esta lacuna, agora com gravação e edição MIDI e instrumentos virtuais integrados. Na verdade, creio que o Auria seja atualmente o melhor DAW para gravação de áudio, com seus processadores de alta qualidade e interface intuitiva para edição e mixagem.

O BeatMaker 2 continua possuindo o melhor sampler para o sistema e uma das melhores drum machines. É o que o Leo usa no iPhone para disparar seus samples através do Octapad. O Cubasis, como plataforma integrada de áudio e MIDI, no momento talvez ainda seja a melhor opção entre os três. Cabe ao usuário decidir sobre suas necessidades principais ao fazer a escolha, ou usar os apps combinados.

Uso estes três apps para gravação de idéias, composição, arranjo, pré-produção e, em muitos casos, para gravação final também. A maioria dos sons que vieram de apps no iPad foram primeiramente arranjados e gravados nestes apps e posteriormente exportados para o Cakewalk Sonar no sistema Windows, onde finalizamos nossos trabalhos.

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MA: Para encerrar, vou pedir uma dica que pode ser muito importante para os leitores do MusicApps. Vejo várias pessoas comprando dezenas de apps, testando uma infinidade de presets, mas criando muito pouco com eles. Qual é o segredo para transformar os apps musicais em verdadeiros instrumentos ou ferramentas musicais? Estudo de síntese, dedicação exclusiva a um aplicativo ou outro por um determinado período? Alguma outra sugestão?

Fabio Ribeiro: O grande lance de fazer música com o sistema iOS é deixar a imaginação fluir. Grave tudo o que você criar, não importa se é um simples rascunho, o importante é capturar a inspiração do momento para que possa ser aprimorada depois. E são tantos os apps que inspiram novos horizontes musicais! O problema é escolher entre tantas opções, no momento da compra e também ao abrir as pastinhas para decidir qual app usar na hora de criar uma música. Tenho cerca de 200 apps de música instalados em meus quatro dispositivos iOS, muitos adquiridos “à la carte” e vários baixados “no calor do momento”.

Eu aconselharia primeiramente uma pesquisa sobre quais apps poderiam contribuir para seu estilo musical em particular e, principalmente, quais poderiam acrescentar algo a mais sobre isso além dos instrumentos que você já usa. No momento da criação, uma menor quantidade de apps essenciais instalados pode valer mais do que muitos apps de funcionalidade e objetivo similares, o que pode levar a um festival de sessões inacabadas ou meras experiências divertidas que não levam a um resultado final e concreto. Adquiridos os apps ideais, é uma boa idéia um aprofundamento em cada um deles.

Muitos apps são intuitivos e de fácil assimilação mesmo para quem não é músico, mas nada que um bom estudo não possa aprimorar em termos de usabilidade e criação. A combinação entre apps diversos também pode ser interessante. Alguns apps podem soar de maneira muito simples quando usados isoladamente, mas quando processados por outros através dos versáteis caminhos de Audiobus ou IAA, podem mudar de personalidade completamente, muitas vezes com resultados surpreendentes.

Quanto aos sintetizadores e demais geradores de áudio, um estudo de síntese mais detalhado é o que vai levar você para além de onde os outros já foram. Existem dezenas de sintetizadores para iOS, alguns com sonoridades únicas e muitos com sons clássicos. Em ambos os casos, assim como com qualquer outro instrumento musical eletrônico, é aconselhável fugir dos presets de fábrica sempre que possível. Por mais que aquele tal som seja ideal para o que você está tentando produzir, lembre-se de que existe sempre a possibilidade de alguém estar usando exatamente o mesmo som em outra composição.

Dependendo da maneira como você usa seus timbres, isto pode contribuir e muito para sua personalidade musical e para que você seja reconhecido como um músico inovador que procura se diferenciar dos demais. Não tenha medo da tecnologia, muito menos preconceito. Ela está aqui para te ajudar a crescer musicalmente e te levar para o futuro!

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Apps utilizados pela Remove Silence no EP “Irreversible” (clique para abrir na App Store):

Alchemy Mobile (não disponível atualmente)
Audiobus
Auria
BeatMaker 2
Cubasis
Cyclop
DM1
DrumJam
Earhoof
Effectrix
Fairlight CMI Pro
Grain Science
iDensity
iMPC
iMPC Pro
Magellan
Mitosynth
Nave
Photophore
Poly
Portable Dandy
Sliver
TC-11
TC-Data

Turnado
WaveMapper


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