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Gaia SH-1: considerações sobre o synth portátil, versátil e controverso da Roland

Marcus Padrini abril 15, 2015 15 Comments »

Você decide que é hora de adquirir um sintetizador portátil, não muito caro, que seja simples de levar para o palco e para ensaios, mas que ofereça uma quantidade razoável de teclas e controles para criar e alterar sons em tempo real, sem precisar navegar por telas intermináveis de menus em um pequeno display LCD. O Roland Gaia SH-01 parece ser uma boa pedida.

Porém, se você optar por fazer buscas pela internet para confirmar a sua ideia, poderá ficar bastante confuso. O pequeno sintetizador da Roland, que já não é nem tão novo assim (foi lançado em 2010), ainda divide opiniões.  Alguns o consideram um synth versátil e poderoso, extremamente portátil e com muitos controles para performance e estudo de síntese sonora. Outros falam que o Gaia não passa de um brinquedo, não apresenta boa construção e não pode nem mesmo ser considerado um verdadeiro VA (sigla para Virtual Analog, termo utilizado para designar sintetizadores digitais dedicados a reproduzirem os instrumentos analógicos).

E então, o Gaia é apenas um brinquedo ou pode ser um bom synth na relação custo x benefício e qualidade sonora? Tendo testado diversos VAs e instrumentos analógicos desde que comecei a me interessar por sintetizadores, decidi desconsiderar tudo que li sobre o SH-01 e fazer o teste sem preconceitos. O Gaia chegou aqui há pouco menos de uma semana e esse tempo já foi mais que suficiente para definir a minha opinião sobre ele.

Raio-x do Gaia SH-01

O Gaia é um sintetizador compacto de 37 teclas de tamanho natural, sensíveis à velocidade (desativada de fábrica, mas acionável a qualquer momento nas preferências de sistema), sem aftertouch. Ele pesa apenas 4 kg e pode funcionar com pilhas. A aposta é em oferecer muitos controles no painel. Não há display LCD.

O SH-01 conta com 3 osciladores, que na verdade acabam funcionando como 3 sintetizadores independentes empilhados, já que possuem filtro, LFO, envelopes e amplificador independentes. Para modificar ou ouvir cada um deles, basta um toque em botões de seleção do lado esquerdo do painel. Além dos 3 sintetizadores, chamados de Tones, há um módulo de efeitos com a possibilidade de utilização de até 5 fx simultâneos, incluindo reverb, delay, distorção e pitch shifter. Destaque para o botão Low Boost que intensifica as frequências graves do timbre quando acionado.

A polifonia é de 64 vozes, algo realmente espantoso para um instrumento de apenas 37 teclas e que não é multitimbral (o Gaia é capaz de emitir apenas um timbre por vez em seu sintetizador). O instrumento conta com algumas peculiaridades: via MIDI, o Gaia é capaz de funcionar como um módulo GM, oferecendo 15 canais para tocar qualquer instrumento do padrão MIDI. Esses timbres só podem ser tocados via MIDI.

Para a performance, o Gaia oferece mais do que todos os controles do painel. O synth conta com entrada para pedal foot switch ou expressão, alavanca de pitch bend e modulação (que eu realmente gosto muito) e o tradicional D-BEAM da Roland: um sensor de proximidade que pode controlar uma série de parâmetros do instrumento usando apenas com a proximidade da mão.

A polêmica sobre o Gaia começa na maneira como ele é vendido. Ele seria um sintetizador VA, mas muitos não concordam com essa ideia.

VA real ou não, eis a questão?

E ela é conceitual. Por um ponto de vista, qualquer teclado que tenta simular um sintetizador analógico poderia ser considerado um Analógico Virtual. Porém, entre os tecladistas, o termo VA significa um instrumento que recria a geração sonora e comportamento de cada detalhe de um sintetizador analógico através de componentes DSP e software. As formas de onda, filtros, etc, seriam sempre gerados dessa maneira: matemática, software e DSP. Dois famosos exemplos de VAs? Nord Lead e MicroKorg. Tudo neles é gerado e tempo real.

Mas, voltando ao Gaia, VA talvez não seja a melhor palavra para definí-lo, se pensarmos apenas nesse último conceito. Isso porque o Gaia SH-01 trabalha na verdade com formas de onda sampleadas. Ou seja, com a gravação de amostras das formas de onda presentes em sintetizadores analógicos. Essas formas de onda são então processadas por demais componentes, como filtros, LFO, envelopes, efeitos, etc.

Se por uma lado esse processo de trabalhar com amostras de formas de onda pode trazer benefícios, apresentando timbres mais reais, por exemplo, por outro traz alguns problemas complicados. Um deles é o aliasing. Como o Gaia trabalha com samples, essas amostras precisam ser manipuladas a todo momento. Um das situações é a alteração de frequência, fazendo com que o mesmo sample soe mais agudo ou mais grave em situações específicas, como em um portamento ou pitch bend. A questão é que, quando falamos de áudio digital, temos uma regra simples e infalível: todas as vezes que um timbre tiver a sua frequência superior à metade da taxa de amostragem utilizada para gravá-lo, começaremos a ouvir outras frequências indesejadas. Isso é o aliasing. No gaia, esse efeito pode ser percebido nos portamentos e bends das notas mais agudas. Não é muito frequente, mas pode incomodar.

Em compensação, seria pouco provável encontrar um VA tradicional com 64 vozes de polifonia pelo preço do Gaia. Como as formas de onda estão prontas, o processamento é menor e mais vozes de polifonia estão disponíveis, o que é ótimo em várias situações.

Para aumentar um pouco a polêmica, vale dizer que o Gaia leva no nome a série SH, iniciada pela Roland com clássicos sintetizadores analógicos na década de 70 e 80 e depois continuada, somente após vários anos, com synths digitais como o SH-32, o SH-201 e o Gaia SH-101. Os instrumentos das duas épocas, exceto a série, em nada se assemelham em relação a recursos e sonoridade. São propostas muito diferentes.

Qualidade de construção

Li em alguns sites diversas críticas sobre a qualidade de construção do Gaia. Sinceramente, elas não procedem. Um Korg MS-20 mini, por exemplo, é feito de metal e ainda assim é mais frágil que um Gaia, sem dúvidas. Meu SH-32 também é de metal, mesmo assim possui knobs molengas e sliders que atuam diretamente na placa de circuito, sem nenhuma proteção contra poeira. O SH-01 é construído em plástico, mas ele dá uma boa impressão de resistência. Os knobs e sliders são firmes e lembram demais a série de controladores PCR da Edirol/Roland. Tenho um PCR-800 há anos e ele ainda funciona de forma impecável.

O mesmo vale para as teclas, totalmente honestas. São ótimas para a proposta do instrumento.

Sonoridade e memória

Se você julgar apenas os presets do Gaia, talvez desista da compra imediatamente. Eles não mostram nem 1/4 do que esse sintetizador é capaz de fazer. Talvez por terem sido gerados para um determinado estilo de música eletrônica, os sons de fábrica realmente não me agradam. Porém, alguns podem servir como pontos de partida para a criação de seus próprios timbres. Até porque, 64 presets são fixos. Você terá que conviver com eles eternamente. Outros 64 são bancos do usuário. Neles você faz o que quiser.

Há ainda a opção de usar pen drives para criar bancos alternativos. Cada pen drive, independentemente da capacidade, comporta apenas um banco de 64 patches.

Mas, voltando ao caso da sonoridade. Se você compra sintetizador para usar somente presets, talvez não devesse comprar um sintetizador com tantos controles, focado justamente na edição e criação do som de forma simplificada.

O que posso dizer é que o Gaia oferece tudo aquilo que você precisa para criar basicamente qualquer timbre da síntese subtrativa tradicional. São 3 osciladores, com várias formas de onda disponíveis (incluindo a Super Saw), cada um com seu próprio filtro (LP, BP, HP e outros), LFO, envelope e amplificador. Além disso, há 5 efeitos disponíveis para uso simultâneo! E a qualidade dos efeitos é bastante satisfatória. O básico está lá. E o melhor, está lá de uma maneira muito simples de entender. É possível imaginar o caminho do som só de olhar para o painel. Mais didático, impossível. Não é a toa que o Gaia é utilizado em algumas escolas pelo mundo para aulas de síntese sonora.

Então, em apenas um dia, decidi fazer alguns sons no Gaia. A maioria bem diferente dos presets de fábrica. Ouça sem preconceitos :)

Vale a pena?

Hoje, um Roland Gaia novo pode ser encontrado por 2 mil reais na internet. Pensando em instrumentos novos, você compraria com este mesmo valor um MicroKorg, um módulo Mopho analógico, um Microbrute e, com alguma sorte, um MiniNova. A questão é: o que você procura?

Vou falar do meu ponto de vista. Sou tecladista. Meu foco não é tanto a música eletrônica. Preciso de teclas. 25 teclas não é exatamente uma quantidade que resolve os meus problemas. Mini teclas são OK, mas estão longe de permitirem a mesma agilidade e conforto das teclas tradicionais. Em relação a custo x benefício em teclas, o Gaia está sozinho.

Não seria melhor comprar um analógico monofônico e usar efeitos externos? Se você já fez isso, já viu como é chato ter que administrar sons e efeitos em equipamentos diferentes. Sem falar que vários monofônicos analógicos nem mesmo oferecem a possibilidade de salvar seus sons.

O Gaia pode ser um ótimo synth para situações ao vivo. Ele tem tudo no próprio instrumento: bons sons, facilidade de edição e bons efeitos.  Na sua faixa de preço, considerando instrumentos novos, o Gaia é uma boa opção para quem procura um synth para leads no palco ou para aprender síntese sonora. E se ouvir falar por aí que ele soa péssimo, pode ter certeza, o problema não é o Gaia.

Curiosidades sobre o Roland Gaia SH-01

  • Por cerca de 50 reais é possível comprar em lojas virtuais o software editor do Gaia para Mac/PC que permite a programação de timbres de forma ainda mais completa.
  • As possibilidades de ajustes do Gaia vão além do que você vê no painel. Vários atalhos de teclas podem ser utilizados para acessar funções como: ativar/desativar sensibilidade do teclado, alterar a posição estéreo de cada oscilador, etc.
  • Pressione o botão PRESET PATCH e depois um dos botões de presets numerados e você poderá tocar com 8 vozes PCM diferentes, incluindo órgão, strings, violino, coro, etc.
  • Conecte seu controlador MIDI ao Gaia, selecione o canal de 2 ao 15 e desfrute da coleção de timbres GM. São 128 instrumentos do padrão MIDI para você usar.
  • A entrada de áudio auxiliar estéreo pode ser muito útil. Ligar o iPad, por exemplo.
  • O Gaia, quando conectado ao computador Mac ou PC, funciona como controlador MIDI e também como interface de áudio. É possível gravar os sons do sintetizador e também da entrada auxiliar estéreo diretamente via USB.
  • A porta MIDI Out do Gaia também pode funcionar como MIDI THRU, basta fazer a configuração nas preferências de sistema.

Roland Gaia SH-01 x Roland SH-32

Como comentei antes, tenho aqui um Roland SH-32. Lançado no início dos anos 2000, esse synth também foi um pouco polêmico, exatamente pelos mesmos motivos: as formas de onda sampleadas. O Gaia seria apenas a reencarnação do SH-32? Sim e não.

O SH-32 possui mais formas de onda que o Gaia, incluindo algumas de instrumentos diferentes como bells, pianos elétricos e órgãos. Ele também conta com um display que facilita bastante o ajuste de diversas funções. A maior diferença está na multitimbralidade: o SH-32 é capaz de tocar até 4 timbres simultaneamente no modo performance. Além disso, conta com alguns drum kits, baseados nas clássicas TR-808 e 909. Também vale citar meus dois recursos favoritos do SH-32 que não estão no Gaia: o Analog Feel, um parâmetro capaz de gerar uma leve instabilidade nos osciladores, recriando o comportamento de synths analógicos, e o efeito de Space Chorus, que é simplesmente lindo.

Mas o SH-32 tem defeitos graves. Seu filtro apresenta vários degraus quando giramos o knob de cutoff e também é extremamente agressivo na ressonância, não no bom sentido. Ele pode te deixar surdo se não for utilizado com cuidado. O portamento também apresenta degraus em alguns intervalos e o aliasing é mais frequente.

O Gaia perdeu alguns recursos do SH-32, mas corrigiu os problemas mais graves. A transição entre notas no portamento está macia, assim como o cutoff do filtro. O Analog Feel pode ser obtido artificialmente com um LFO alterando a afinação dos osciladores usando uma forma de onda randômica. O Space Chorus é mais difícil reproduzir, mas usando o Pitch Shifter e a função de Auto Pan do Gaia, o resultado é bem satisfatório.


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15 Comments

  1. Douglas abril 21, 2015 at 8:42 pm - Reply

    Muito bom este artigo ,tirou muitas dúvidas !

    • musicapps abril 22, 2015 at 10:56 am - Reply

      Que ótimo, Douglas! Fico feliz em ter ajudado.

  2. Carlos Henrique maio 17, 2015 at 2:08 am - Reply

    Foi muito esclarecedor, tenho muita vontade de comprar um Gaia, para colocar em pratica meu aprendizado de síntese.

    Caso você já tenha experimentado o JP8000, tem aguma semelhança?

    Outro ponto, você já experimentou algo da EMW (sintetizadores nacionais)

    • musicapps maio 18, 2015 at 9:33 am - Reply

      Sim, vários sons são semelhantes. O JP é mais robusto e possui mais volume, maior presença do som. O Gaia é mais compacto e também mais moderno, apresentando recursos interessantes como a conexão usb, etc. Já experimentei sim. Possuo um mini modular da EMW. São synths legais. Possuem as vantagens e as desvantagens do analógicos, mas são boas ferramentas de aprendizado, sem dúvidas. Abs

  3. Cristiano maio 20, 2015 at 5:01 pm - Reply

    Olá, eu tenho um ROLAND GAIA e queria saber qual o comando para ativar/desativar a sensibilidade das teclas.
    Abs

    • musicapps maio 22, 2015 at 12:47 pm - Reply

      Pressione e mantenha pressionando o botão Cance/Shift e pressione o botão Key Hold. Botão Key Hold iluminado: sensibilidade FIXA. Botão Key Hold apagado: Sensibilidade ativada. Página 51 do manual. Abs!

  4. Igor Félix julho 20, 2015 at 3:55 pm - Reply

    Olá, sou iniciante em produção musical e estava pensando em comprar um gaia, pois tenho vontade de ter um controlador midi e um sintetizador para criar meus próprios timbres, irei utilizar programas como ableton e fl studio para a produção de musicas, e tenho interesse em fazer produções assim: https://www.youtube.com/watch?v=T9yJaLqw9_Q

    Gostaria de saber se o gaia é apropriado para o que citei, desde já agradeço! ;)

    • musicapps julho 21, 2015 at 10:18 am - Reply

      Igor, será uma ótima ferramenta para aprender o básico da síntese subtrativa. Será possível fazer parte dos timbres da música que mandou. Com o que você aprender, será tranquilo criar novos e reproduzir esses em instrumentos virtuais. Apenas um detalhe: se você pensa em usar também os controles do gaia como controlador MIDI: apenas os knobs enviam mensagens MIDI para o computador. Os sliders, não. Abraços!

      • Igor Félix julho 24, 2015 at 3:55 pm - Reply

        Você acha que vale a pena, pelo custo-benefício para o que eu quero?

        • musicapps julho 24, 2015 at 4:12 pm - Reply

          Se a ideia foi aprender síntese e criar seu sons com a experiência do hardware, sim :) Abs!

          • Igor Félix julho 24, 2015 at 6:07 pm -

            Ah sim, muito obrigado! :D

  5. @cranioex agosto 3, 2015 at 9:25 am - Reply

    Ola Marcus eu comprei o Gaia SH01 para musica eletrônica e não me arrependo, meu outro salto vai ser com os modular da EMW vc pode dar uma ideia sobre o modular que vc testou deles!!!

    • musicapps agosto 4, 2015 at 10:50 am - Reply

      Ótimo! É um sintetizador muito inspirador! Pretendo falar com mais calma dos EMW em breve! Abraços!

  6. ANISIO DE PAULA janeiro 1, 2016 at 11:47 pm - Reply

    OLÁ MARCUS! EU USO ARRANJADOR KETRON x-1 preciso as vezes usar um timbre e rapidamente usar outro esse GAIA SERIA IDEAL ? OU VOCE ME RECOMENDA OUTROS NÃO USO EFEITOS POIS TOCO MPB, SAMBA ETC LEMBRANDO QUE NO KETRON NÃO EXISTE BANCO DE TIMBRES E NEM DE RITIMOS

    • musicapps janeiro 8, 2016 at 11:59 am - Reply

      O Gaia é legal para timbres mais eletrônicos, justamente por ser um sintetizador virtual analógico. Ele não terá timbres, acompanhamentos, etc. A ideia é oferecer leads, pads, baixos, etc.

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