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Música na Mochila: Guto Guerra fala sobre sua aventura musical pelo mundo, novas tecnologias e música portátil

Marcus Padrini outubro 18, 2013 1 Comment »

Guto Guerra é produtor musical e diretor de criação da agência Gomus, especializada em Music Branding e que, recentemente, passou a atuar também como gravadora. Apaixonado pela diversidade musical do mundo, apresenta a série Música na Mochila, que está na sua segunda temporada no canal BIS. Somente com o programa, Guto já visitou mais de 10 países, conheceu mais de 150 artistas e colecionou histórias para lá de interessantes.

Buscando exibir experiências musicais autênticas ao redor do planeta, o Música na Mochila foge do lugar comum e mostra parte da cultura musical mundial que raramente chega por aqui, observada do ponto de vista de um músico curioso, que também interage com os personagens, investigando o que da música brasileira andou viajando e se instalando por aí.

Música na Mochila, instrumentos musicais tradicionais e modernos, música com dispositivos móveis e tecnologia musical foram os principais assuntos da minha conversa com o Guto Guerra, que você confere agora em sua entrevista ao MusicApps.

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MA: Como surgiu a ideia do Música na Mochila e como foi a preparação da equipe para este projeto?

Guto Guerra: Na verdade, a série nasceu de uma experiência pessoal minha. Eu, como produtor musical, sou diretor de criação da Gomus, que é uma agência de Music Branding, onde trabalhamos criando música para marcas de publicidade. Mas a minha história sempre foi uma relação com a música do mundo. Sempre fui curioso sobre todas as vertentes musicais que a gente pode encontrar no planeta. O programa é muito verdadeiro, pois na minha vida já fiz vários Música na Mochila sem estar gravando. O primeiro charango que eu tive consegui trocando por um cavaquinho em uma praça no Peru, com 18 anos de idade.

Música na Mochila na Índia

Quando surgiu o convite da TV, logo pensamos em fazer um programa sobre a música do mundo, por acreditar que o brasileiro é muito influenciado ainda pela música americana e londrina, ficando afastado do que acontece no resto do planeta. A ideia é mostrar as diferentes maneiras de se pensar a música no mundo.  Não podemos falar que são apenas estilos ou gêneros diferentes, mas sim outras perspectivas para a comunicação musical. Um instrumento que gera um timbre diferente, afinado de uma outra maneira acaba criando uma nova forma de pensar a música.

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MA: Como aconteceu a escolha dos países que seriam visitados?

Guto Guerra: Temos uma equipe de 12 pessoas para o programa. Quatro viajam: eu e mais três câmeras. As decisões são musicais. Dividimos o mundo em grandes culturas musicais e tentamos diversificar a partir daí. Na primeira temporada, por exemplo, mostramos da música latina Porto Rico e México. Na segunda, estamos mostrando Argentina e República Dominicana. Tentamos não colocar sonoridades muito semelhantes na série. Nossa busca é pela diversidade.

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MA: Quantos países já foram visitados pelo Música na Mochila?

Guto Guerra: A série já foi a 13 países. Na primeira temporada fizemos Austrália, Romênia, Turquia, México, Jamaica, Porto Rico e África do Sul. E na segunda gravamos no Japão, Rússia, Suécia, Índia, República Dominicana e Argentina.

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MA: Falando de instrumentos. Você escolheu levar um bem pequeno: o cavaquinho foi seu companheiro de viagem…

Guto Guerra: Legal falar neste assunto. Eu não sou cavaquinista. Quando pensamos no formato do programa, imaginamos uma via de mão dupla. A primeira via é mostrar para o público brasileiro uma riqueza musical que dificilmente chega por aqui. A outra é tentar investigar o que da música brasileira chegou a estes lugares.  Tivemos que escolher algo que representasse a “brasilidade”, o que é bem difícil em uma país com mais de 300 ritmos regionais. Optamos pelo cavaquinho por ser um signo ligado ao samba, considerado por muitos fora do brasil como o estilo musical brasileiro por excelência, e também por ser móvel! A portabilidade foi importante. Não sou especialista no instrumento, mas valeu a pena pela série.

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MA: Apesar do cavaquinho bastante evidente, vimos você com alguns outros instrumentos na série, principalmente nas viagens de trem e em algumas jams. Acho que você esteve tocando com o OP-1 e o Pocket Piano, certo?

Guto Guerra: Minha vida é estúdio. Acordo de manhã e fico o dia todo no estúdio. Quem trabalha assim acaba ficando viciado nos grandes hardwares. Mas eu sou um grande fã da música portátil! Eu acredito que há uns 10 anos temos vivido um momento em que é possível fazer música seriamente com gadgets pequenos, leves e super poderosos.

Guto Guerra e o pequeno, mas poderoso, sintetizador OP-1

O OP-1, que você citou, é um dos meus cavalos de batalha: um sintetizador menor do que um “Pense Bem” e que não perde em nada para um sintetizador gigante de 5 mil dólares. A sonoridade é incrível e dá para fazer música de verdade com ele. E coube bem no conceito da série. Peguei todo meu arsenal de portáteis da Gomus e levei para o programa.  O Pocket Piano é outro synth que adoro. É som de gente grande, com um arpejador incrível.

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MA: Já que estamos falando de novos instrumentos compactos, você acha que a interface do instrumento influencia muito na criação de uma música?

Guto Guerra: Eu acho que sim. Os gadgets são muito voltados para a música eletrônica. São ótimos para o estúdio e para fazer música na estrada. Em alguns outros universos, podem não ser tão legais por uma questão estética. Sou fã se sequencers. É uma forma de criar música de maneira não convencional. Na segundo temporada, viajei na mochila com o OP-1, o Pocket Piano, uma bateria eletrônica analógica MFB e um MPC.

Este tipo de equipamento sugere um determinado caminho musical. A forma como as notas são tocadas e organizadas na divisão do tempo acabam levando à melodias que serão diferentes das que surgiriam em um um piano, por exemplo. É muito diferente compor um groove com uma bateria acústica na sua frente ou com um processador e um step sequencer. Não é que um seja melhor do que o outro, mas o próprio equipamento pode sugerir os caminhos musicais. Muitas vezes o músico nem percebe, mas parece que o hardware fica soprando o caminho no ouvido dele.

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MA: Na série vemos instrumentos muito tradicionais combinados com equipamentos muito modernos. Poderia comentar alguma experiência do tipo?

Guto Guerra: Na Austrália, encontrei o Charlie McMahon. Ele é uma lenda do didgeridoo, mas daquelas lendas não reconhecidas pelo grande público. Tocou didgeridoo a vida inteira, mesmo não sendo aborígene e tendo começado em uma época em que o instrumento não estava na moda. E o Charlie tem uma coisa de inventor e professor Pardal. Pegou o didgeridoo, tradicionalmente capaz de emitir somente uma nota, e construiu o didgeridoo com um tubo, como um trombone, capaz de produzir uma oitava completa.

Charlie McMahon e seu Didgeridoo melódico

Além disto, por conhecer de eletrônica, construiu pedais de efeito caseiros e decidiu usar pedais de loop e um MicroKorg. Assim, ele grava várias camadas do didgeridoo sendo processado por efeitos diferentes e, em pouco tempo, a música de origem aborígene fica com cara de música eletrônica, sendo tocada por um músico de 65 anos de idade, em um local exótico, com um instrumento que poucas pessoas compreendem ou terão oportunidade de ouvir na vida.  É um bom exemplo de como o tradicional se encontra com o novo.

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MA: Vimos que você tem grande familiaridade com sintetizadores. Em um dos episódios você foi ao Japão, um paraíso destes instrumentos. Como foi esta visita?  Já havia ido a um local com tantos sintetizadores?

Guto Guerra: Sim. Acho que no mundo temos algumas Mecas dos sintetizadores. Tem um lugar em Nova Iorque que recomendo para todos os tecladista, baixistas e guitarristas, que se chama Main Drag Music. É um galpão gigantesco, com todos os instrumentos vintage que você possa imaginar. E, dentro desta área, eles têm um carinho especial pelo sintetizadores, consertando modelos clássicos de todos os tempos.  No Japão, gravamos em Tóquio, no bairro de Shibuya. Tive a oportunidade de conhecer um produtor de música eletrônica japonês, conhecido como Aus, que, como todo japonês, é freak com as maquininhas. O papo foi para o lado dos equipamentos e acabamos indo até aquela loja, que já haviam me indicado, mas não sabia onde era.

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MA: Você utiliza aplicativos musicais em tablets e smartphones?

Guto Guerra: Vou confessar. Eu demorei a entrar no mundo dos iPads. No estúdio, algumas vezes você olha e tem um Nord Lead do seu lado. Acaba se perguntando “por que precisaria de um aplicativo musical?”. Fiquei um pouco reticente para entrar neste mundo. Mas, depois que entrei, vi que há muitas possibilidades sérias para se fazer música com o tablet. Fiquei pirado com a versão da Korg para o sintetizador MS-20, o iMS-20. Já gravei com o iMini e, não sei se o pessoal já conhece, estou usando uma bateria eletrônica chamada DM-1, que é fantástica! Acho que não importa muito a plataforma. Se você está em um instrumento medieval ou super futurista, no final tudo é pela música. O resultado alcançado é o que vai dizer se a música foi capaz de emocionar,  de gerar prazer nas pessoas. A mensagem no final é fazer bom uso dos recursos que você tem, criando boas músicas.

MA: Quem faz música é o músico, não o instrumento, certo?

Guto Guerra: Exatamente. O instrumento pode sugerir linhas melódicas, linhas de baixo, etc. Mas você é o criador. A beleza da música digital é tirar a segregação da música. Você não precisa ir a um estúdio grande para ter acesso à máquinas caríssimas, que só podiam ser usadas por poucas pessoas que eram os eleitos capazes de operar aqueles equipamentos. A música digital democratiza. Quem nunca pegou um uma Linndrum tem um app que vai emular aquilo sem grandes perdas em relação ao som original. É válido e é melhor para todos ter mais gente fazendo música e mais música circulando.

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MA: Durante a série vimos um australiano cantando samba e tocando cavaco, japoneses fazendo show de música brasileira, você fazendo jam de Luiz Gonzaga com uma banda de metal russa. Depois destas duas temporadas, como ficou a sua ideia sobre a música brasileira lá fora?

Guto Guerra: A gente pensa muito na questão do samba, que acaba sendo um fato. O gringo não diferencia bem o samba da música latina. Merengue, salsa e samba podem ser a mesma coisa. Isto é uma generalização, é claro. Há quem consiga diferenciar perfeitamente. Por outro lado, o Luiz Gonzaga, que você citou, tem um reconhecimento enorme lá fora. Estive com o Mustafa Ceceli, grande produtor de pop na Turquia. O que ele conhecia da música brasileira era a discografia do Luiz Gonzaga.  Estive com o um grande percussionista na República Dominicana, Chichi Peralta, que também idolatrava a obra do Luiz Gonzaga. Isto é muito bonito de se ver.

Dan do Cavaco, o australiano que não fala português, mas canta e toca dezenas de sambas tradicionais

A outra coisa que achei fantástica é que muitos dos artistas que conversei eram fãs de outra banda que não tem o reconhecimento merecido por aqui: os Mutantes. Acho que são mais reconhecidos lá fora do que por nosso povo. E geralmente são apontados como música de vanguarda. Isso é legal para não concentrar nossa música em um só estilo, como o samba baiano ou carioca.

Os episódios inéditos da segunda temporada do Música na Mochila são exibidos todas as quartas-feiras, às 19h, no canal BIS. Há reprises em diversos horários alternativos. Acompanhe o Música na Mochila no Facebook e saiba mais sobre a série no site do programa.


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