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Fabio Ribeiro: iPad é “um dos dispositivos mais interessantes para tocar, produzir e gravar música atualmente” (Entrevista)

Marcus Padrini março 20, 2013 7 Comments »

Uma ferramenta não é muito mais do que um simples objeto, se você não souber usá-la. Podemos dizer o mesmo de um instrumento musical e, por que não, de um aplicativo musical rodando em um iPad. Nosso entrevistado de hoje no MusicApps identificou novas possibilidades musicais no tablet e vem explorando com criatividade os recursos do iPad e seus aplicativos em suas composições, gravações e performances.

Fabio Ribeiro é tecladista, produtor e consultor de tecnologia musical. No currículo, traz a passagem por bandas como Angra, Shaman e Violeta de Outono, além do trabalho solo e como especialista em instrumentos e equipamentos musicais de importantes marcas.

Envolvido com música eletrônica deste 1986 e com larga experiência em sintetizadores, Fabio hoje utiliza, além de seus equipamentos e teclados clássicos, novidades em seu trabalho com o Remove Silence, projeto que combina música eletrônica, elementos de vários estilos e que está lançando o terceiro EP. Entre as novas ferramentas sonoras, encontramos Monotrons e diversos aplicativos musicais para o iPad.

Nesta entrevista, vamos saber um pouco mais sobre a história e o trabalho de Fabio Ribeiro, falando de música, instrumentos musicais, música móvel e tecnologia.

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MA: Na história, temos alguns casos de músicos que concluíram uma formação erudita em um determinado instrumento e depois acabaram indo para o caminho dos sintetizadores e outros instrumentos menos convencionais. Este foi o seu caso?

Fabio Ribeiro: Foi o meu caso sim. Meu pai era professor de violão erudito e tinha uma banda de chorinho. Minha mãe tocava piano. Então foi quase que uma obrigação eu ingressar no universo da música. Quando eu nasci, meu pai disse que certamente eu iria tocar algum instrumento. Ele sempre dizia que a música engrandece a cultura e a sensibilidade de um indivíduo e eu também sempre concordei com isso. Minha casa foi sempre essa central para pessoas envolvidas com música, desde os tempos dos ensaios da galera do chorinho. Tenho algumas lembranças deles tocando aqui até altas horas da madrugada… Hoje tenho um estúdio de gravação que acabou ocupando metade da casa e o ambiente continua o mesmo. Nunca houve muito silêncio por aqui.

Comecei os estudos com o curso de piano erudito em 1975, o qual concluí onze anos depois. Em 1984, fui convidado pelo baixista Fabio Zaganin a integrar minha primeira banda – Annubis – que fazia um som instrumental muito variado, com fortes influências de rock progressivo e heavy metal. O fato curioso é que eu entrei na banda tocando guitarra. Os primeiros shows do Queen, Kiss e Van Halen no Brasil geraram em mim um interesse incontrolável pelo instrumento e eu resolvi arriscar. Mas a banda tinha mais um guitarrista, e não levou nem um ano para que todos me questionassem sobre qual instrumento eu realmente deveria estar usando, em vista dos meus dotes musicais em um e no outro. Foi então que comprei meu primeiro instrumento elétrico de teclas, um híbrido de órgão e sintetizador de fabricação nacional, não muito aprimorado. A banda toda foi comigo. Foi um evento festejado. Costumo contar esta fábula para ilustrar as dificuldades que tínhamos para encontrar informações sobre instrumentos na época.

O iniciante não tinha suporte algum. Em uma segunda loja havia um Korg Poly 800 por um preço equivalente. Era um teclado respeitado, quase tão desejado por aqui quanto um Juno 106 ou um DX7. Algo que eu não fazia a mínima idéia. Em uma época onde o máximo que se podia encontrar sobre tecnologia, sintetizadores e afins era uma coluna ou outra na revista SomTrês e olhe lá, não foi nada fácil a decisão. Acabei optando pelo maior, com mais botões e luzes… O aprendizado da parte operacional do instrumento aconteceu da mesma forma, caçando material didático onde fosse possível. Sou totalmente autodidata na área de tecnologia musical. Foi tudo na base da experiência e da tentativa e erro mesmo. Os tecladistas e demais músicos iniciantes hoje deveriam agradecer muito pela imensa quantidade de informação disponível, na mídia impressa e na internet, e também pelo acesso fácil a instrumentos de qualidade, nacionais e importados. Hoje nenhum músico interessado e ambicioso por informação se depara com a sensação de estar isolado em um território remoto no terceiro mundo.

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MA: Você tem passagens importantes em bandas de grande expressão. Nestes trabalhos havia/há espaço para experimentar instrumentos e equipamentos diferentes ou isto ficou restrito ao estúdio e trabalho próprio?

Fabio Ribeiro: Eu sempre procurei ter uma personalidade musical própria, mas também sempre me adaptei bem aos diferentes estilos musicais das bandas pelas quais passei, de acordo com a necessidade do som, ou com as regras que alguns sistemas de mercado costumavam impor sobre o músico por diversas razões.

Fabio Ribeiro e o Remove Silence

Em qualquer uma destas situações, seja para aprimoramento do som ou simplesmente para atender a um determinado público ou mecanismo quando se está em um trabalho controlado, procurei sempre que possível imprimir a minha cara. Afinal esse é o grande barato da arte, a tal da expressão pessoal. Do contrário a coisa não valeria a pena… Desde cedo, quando eu comecei a escrever sobre tecnologia na mídia impressa dos anos noventa, eu costumava dizer que os timbres de um tecladista também fazem parte da sua personalidade musical. Continuo acreditando nisso, e hoje percebo que este universo é ainda mais extenso, fundindo-se perfeitamente com o que se chama de “sound design”.

Posso arriscar e dizer que no momento atual estou trabalhando mais como um “sintesista” ou “sound designer” do que simplesmente como o instrumentista cuja ferramenta é o teclado. O que se conhecia por “teclado” no contexto de uma produção musical ou de uma banda se tornou uma estação de criação e performance em uma variedade enorme de formas! Por isso estamos fazendo esta entrevista :) Acho primordial o domínio técnico de um ou mais instrumentos, afinal esta é a base mecânica para que a interface – por enquanto suas mãos e dedos – funcione bem e possa administrar os geradores de áudio que irão constituir o seu som. Mas, para uma expressão musical completa, muitas vezes é necessário ir além. Acho que o contexto de som é algo muito maior que um instrumento isolado. O apreciador de música, que está no final desta linha de comunicação, capta a mensagem como um todo, na grande maioria das vezes de forma emotiva, não muito racional. Então o que importa é esta “onda de energia” final que atinge o ouvinte, não exatamente o que está sendo feito e, menos ainda, por quem ou por o quê… É como costumo brincar com a galera aqui no estúdio, o que importa é o som que sai, não de onde vem… Mas se este som é o seu som, com a sua cara, as pessoas saberão que é você.

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MA: Gostaria que falasse um pouco da banda Remove Silence. Há um propósito de não respeitar rótulos do mercado. Existe uma idéia da sonoridade desejada pela banda, ou é uma renovação constante?

Fabio Ribeiro: Não creio que houve uma idéia para a sonoridade da banda. Para falar a verdade, cada vez que a gente entra no estúdio para fazer alguma coisa, ninguém tem a mínima idéia do que vai sair… Um dos principais motivos pelos quais montamos a banda é justamente esta liberdade artística. Desde o início decidimos não seguir nenhum tipo de regra e fazer o que gostamos de verdade.

Todos nós temos influências das mais diversas, mas um objetivo em comum, que é fazer música sem limites. Acho que a fusão destas diferentes personalidades acabou gerando essa entidade estranha, rotulada algumas vezes como original, surreal, ou simplesmente surpreendente para muitas pessoas que nos conheciam praticando outros estilos até agora. Mas na verdade o que a gente faz é simplesmente deixar a produção fluir, apostando mais na mensagem musical, no conteúdo e na tal onda de energia, deixando de lado fórmulas e conceitos triviais. É meramente um trabalho de expressão e espontaneidade. Certamente é a banda mais divertida que já tive!

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MA: Em que momento o iPad surgiu para você como ferramenta musical?

Fabio Ribeiro: Desde o primeiro momento. Na verdade, entrei com um certo atraso neste universo, mas já vinha pesquisando muito sobre o dispositivo, desde a época do lançamento do primeiro modelo. Adquiri o iPad 3 exclusivamente para fazer música e pretendo agora incluir no set uma segunda unidade iPad 4.

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MA: Sei que você sempre está cercado por ótimos sintetizadores. Qual espaço o iPad ocupou nos seus equipamentos? Substituiu algo ou só agregou possibilidades? Ele vai para o palco?

Fabio Ribeiro: Com certeza vai para o palco. Este foi o pensamento inicial. Um dos objetivos do Remove Silence é apresentar um show diferenciado, amplamente baseado no uso de tecnologias diversas para geração de música e entretenimento áudio-visual. Todos na banda usamos uma variedade de dispositivos alternativos além de nossos instrumentos de origem, para reproduzir as camadas de sonoridades presentes nos álbuns e também para acrescentar elementos de performance aos shows. O baixista/vocalista Ale Souza está incluindo o iPad em seu set também.

Sintetizadores, Theremin e iPad nas gravações do Remove Silence

Meu equipamento sempre variou muito com o passar dos anos, no estúdio e no palco, de acordo com as necessidades das bandas pelas quais passei. Procuro pelos instrumentos mais dinâmicos, de melhor qualidade sonora, e que de certa forma ofereçam praticidade e confiabilidade na estrada. De uns tempos para cá, graças aos avanços da tecnologia, o set veio diminuindo de tamanho e aumentando em poder de fogo. Estou usando atualmente o set mais compacto e prático que já pude organizar, e ainda assim as opções me oferecem mais flexibilidade que qualquer outro set anterior. Tudo gira em torno do Workstation Korg Kronos, responsável pela maior parte do sistema.

Um segundo teclado, o Korg X50, é usado simplesmente como um conjunto adicional de teclas e controles para o Kronos, conectado via USB. Os sinais de áudio do Workstation, divididos em seis saídas separadas, são administrados por um Mixer Mackie 1402. Alguns equipamentos complementares como o Nord Electro 2, responsável pelos sons de órgão Hammond, o Moog Theremin, e os sintetizadores analógicos da série Korg Monotron são conectados diretamente ao Kronos para processamento dedicado música-a-música, ou ao Mixer. É um sistema muito simples, não existem conexões MIDI complicadas, pedais ou processadores de efeito, não há excesso de cabos…

As unidades iPad estão sendo incorporadas justamente devido às possibilidades de performance e controle de outros dispositivos, além das excelentes sonoridades exclusivas produzidas por diversos de seus aplicativos. A tela multi-touch é um recurso único para aplicações musicais, oferecendo possibilidades de controle e expressão que simplesmente não podem ser obtidas através das técnicas convencionais usadas em um instrumento como o teclado, por exemplo. Trata-se de uma nova maneira de controlar a música, em seus mais variados aspectos. Ao agregarmos isto a mecanismos de síntese inovadores e interfaces de usuário extremamente intuitivas, em um aparelho praticamente do tamanho um caderno, temos um dos dispositivos mais interessantes para tocar, produzir e gravar música atualmente.

Em seu álbum de equipamentos no Facebook, apps para iPad marcam presença

O iPad está sendo utilizado intensamente aqui no estúdio também. Estamos lançando um EP com mais sete faixas, algumas das quais são composições novas. O iPad e seus apps foram responsáveis pela inspiração, desenvolvimento e sonoridades finais de grande parte destes momentos e está presente no trabalho em suas mais variadas formas.

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MA: Como você avalia a qualidade sonora dos melhores apps musicais para iPad da atualidade? Eles já conseguem competir com instrumentos virtuais para o computador ou até mesmo teclados e equipamentos reais?

Fabio Ribeiro: Esta foi uma das minhas primeiras preocupações na época em que o primeiro modelo foi lançado. Será que um dispositivo com estas especificações e proporções será capaz de lidar com as altas cargas de processamento exigidas pelos aplicativos musicais de alta qualidade?

Teclados Korg e iElectribe no iPad

A satisfação em relação à qualidade sonora veio logo de início, com um dos primeiros apps musicais profissionais lançados, o Korg iMS-20. Em seguida, apps como o Animoog chamaram minha atenção devido às inovadoras possibilidades de controle das notas em seu teclado customizável. Ao conhecer o TC-11 da Bit Shape, percebi o quão fantástica a tela multi-touch pode ser ao controlar até mesmo aspectos conhecidos dos sistemas de síntese sonora… Sabemos que não é nada fácil idealizar e desenvolver softwares musicais de qualidade. Isto carece de know-how, muito tempo e, principalmente, de dinheiro.

Obviamente as empresas com maior estrutura saíram na frente no início, mesmo que algumas vezes dispondo de produtos já disponíveis em outros sistemas, aprimorados ou simplesmente adaptados para os recursos do iPad. Os novos desenvolvedores, por outro lado, vieram com idéias novas, muitas delas excelentes, embora algumas vezes ainda detidas pela limitação inicial de recursos destas pequenas empresas.

É interessante notar que a situação vem se modificando, com o aparecimento constante de novos apps muito bons, desenvolvidos por nomes que jamais havíamos ouvido falar. O maior problema, na verdade, tem sido a capacidade de processamento e armazenamento de dados do iPad, assim como vem acontecendo com todos os computadores até agora. Nos anos setenta, não imaginávamos um poder tão grande em dispositivos pequenos como os desktops dos anos oitenta e noventa. Até outro dia, não acreditávamos que um laptop seria capaz de administrar completamente e de forma profissional a gravação de um álbum inteiro… É apenas uma questão de tempo.

Sintetizador MS20 no iPad, no desktop e no Korg Kronos

Apps isolados já estão chegando a um nível de qualidade idêntico aos softwares desenvolvidos para computadores ou instrumentos digitais. Mais importante que isto, estão sendo apresentados sistemas de geração de som realmente diferentes, baseados nas mais variadas formas de síntese sonora e processamento de áudio. As vezes eu penso que essa galera nova que anda desenvolvendo apps para iOS está muito mais empenhada em apresentar algo realmente novo para quem faz música do que as grandes empresas fabricantes de teclados eletrônicos, softwares para computadores, ou outros equipamentos de tecnologia de ponta…

A grande barreira entre o iPad e sistemas como os proporcionados pelo Kronos ou por um setup baseado em laptop será quebrada quando uma boa quantidade destes apps (requerendo poder de processamento intenso como no caso de sintetizadores virtuais, e contendo grandes quantidades de dados armazenados como no caso de samplers profissionais )puder rodar simultaneamente no sistema iOS, com possibilidades de administração flexíveis e automatizadas, sem a necessidade de muitas configurações e conexões virtuais manuais. O iPad 4 pode ser uma introdução a esta tão aguardada situação. Estamos apenas a mercê do sistema capitalista, que como sempre vai liberar a coisa aos poucos. A tecnologia já existe!

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MA: Existe algo que você sente falta nos apps musicais para o iPad? Se pudesse escolher um aplicativo a ser desenvolvido ou melhorado, qual e como seria?

Fabio Ribeiro: Uma das coisas que senti falta no início está sendo inicialmente suprida pelo excelente Audiobus. Não entendo como a própria Apple não saiu na frente com esta solução, algo tão simples e tão funcional. A possibilidade de integração de apps e gravação intuitiva é um dos aspectos mais importantes para mim neste momento, além de usar o sistema como instrumento musical ao vivo.

Afinal, o grande barato do iPad é poder fazer música em qualquer lugar, e ter isto registrado. O que está acontecendo atualmente é que estes registros, outrora meros rascunhos e idéias a serem aprimorados posteriormente em estúdio, já podem ser gerados de forma definitiva. Usando-se bem os recursos é possível obter resultados extremamente profissionais. A compatibilidade do Auria e do Cubasis com Audiobus é o primeiro passo para um sistema realmente satisfatório para quem compõe e produz música profissionalmente, fora de casa.

Ainda estou procurando pelo “sampler tradicional” definitivo para iOS. No momento, boa parte dos apps disponíveis que usam esta tecnologia são voltados para aplicações de DJ ou aproveitam-se dos recursos excepcionais do iPad. Estou usando alguns destes “samplers alternativos” como se deve e me divertindo muito! Meus preferidos são o Samplr e o SampleWiz, que abordam a tecnologia de forma inovadora, oferecendo excelentes opções de expressão e controle sobre as amostras. Outros apps que uso muito, e que apresentam outra tecnologia já existente, porém de forma revigorada, são o Grain Science e o iPulsaret. A síntese granular é uma das formas mais interessantes de se lidar com amostras digitalizadas de sons naturais e sintéticos.

Todavia, ainda não existe um app que administre bem um sistema baseado em multisamples, preferencialmente em streaming, com boa polifonia e recursos profundos de edição. Se pudéssemos ter ao menos algo como o módulo NN-XT do Reason no sistema iOS já seria um grande passo, quem dera algo como o excelente Kontakt! Claro, mais uma vez, isto só depende de um processamento mais rápido e de uma melhor administração de dados armazenados em grande escala, algo que certamente virá.

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MA: Fora usar o iPad como instrumento e ferramenta musical, você utiliza algum outro equipamento mais desconhecido do grande público para fazer música?

Fabio Ribeiro: Sempre fui adepto de formas alternativas de gerar e processar sons, ao vivo e no estúdio, no início por necessidade, para soar bem com poucos recursos, e posteriormente para suprir um desejo de inovar, de soar de forma diferente sempre que possível. Gosto de misturar tendências e sonoridades, não somente nas composições, mas principalmente na geração dos sons que uso nestes arranjos, para criar algo novo, uma química ainda não conhecida. Isto é algo que muitas vezes acontece por pura sorte e dá certo. Gosto de experimentar sem limitações.

Monotrons e Monotribe

Neste momento, não estamos levando muito equipamento para os shows. Como disse, a tecnologia permite manter a coisa de forma compacta e mesmo assim apresentar uma qualidade de som surpreendente. Claro que eu adoraria levar para o palco alguns itens que uso em estúdio e certamente enriqueceriam a parte visual da performance. Sou apaixonado por instrumentos alternativos “vintage”, por exemplo. Todavia estes dispositivos são grandes, caros, extremamente frágeis e temperamentais.

Não vejo problema algum em procurar alternativas quando a sonoridade é o mais importante, já que muitos destes aparelhos possuem hoje seus clones digitais em diversos formatos, apresentados de forma praticamente impecável para quem ouve o som em um contexto geral. Uso um Moog Theremin nos shows do Remove Silence, processado pelo Kronos. Não é exatamente um instrumento desconhecido, mas sempre é possível perceber uma surpresa nos olhares da galera quando é usado em pontos estratégicos durante as apresentações. Os músicos e o público brasileiro em geral parecem ainda não ter absorvido algumas formas mais recentes e alternativas de fazer música, algo que já está acontecendo internacionalmente há um bom tempo, então algumas vezes a presença de um dispositivo não usual acaba gerando reações diversas. Isso é ótimo! Pretendo incorporar mais alguns dispositivos. Curiosamente, estou usando no iPad o Petites Ondes, um app que simula com uma fidelidade muito interessante o singular Ondes Martenot. Este é um instrumento que eu desejaria levar para o palco, mas trata-se de uma raridade, quase uma iguaria. O iPad, de certa forma, está tornando isto uma “realidade”.

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MA: Tecladistas geralmente gostam de tecnologia. Gostar do iPad não seria tão difícil. Porém, para seus parceiros de banda, de outros projetos e que tocam outros instrumentos, você percebe que o iPad e o iPhone começam a ser adotados para diferentes atividades relacionadas à música?

Fabio Ribeiro: Todas as pessoas para as quais mostro minhas experiências e produções no iPad, músicos ou não, se surpreendem com a qualidade sonora e com as possibilidades que a tela multi-touch apresenta. Meus alunos do curso de tecnologia usam, pois além de todos os atributos, o sistema é extremamente intuitivo e muitas vezes didático.

EP Remove Silence

No nosso caso a coisa está sendo muito natural. A banda inteira trabalha com tecnologia musical constantemente. O Ale Souza é meu sócio aqui no estúdio, produzimos muita coisa juntos. É viciado em dispositivos eletrônicos diversos tanto quanto eu, vive na App Store. Hoje mesmo no ensaio o nosso baterista, Edu Cominato, estava experimentando o Impaktor no iPhone. Sempre que estas coisas acontecem, registramos e acabamos produzindo depois.

O Hugo Mariutti, vocalista e guitarrista, está lançando seu primeiro álbum solo, em grande parte gravado em um MacBook Pro… É algo constante. Além da necessidade, pois todos nós trabalhamos com produção musical, existe essa vontade de se manter atualizado, pesquisar, experimentar, sempre tentando inovar e progredir artisticamente. Tenho visto um leve crescimento de interesse aqui no Brasil. Mas de uma forma geral, a meu ver o músico brasileiro parece ainda não ter se adaptado totalmente a estas novas linguagens, tanto no estúdio quanto na situação ao vivo. Como sempre, rola esse “delay” por aqui, em todas as áreas. É uma pena, mas ao contrário do cenário alternativo ou da música eletrônica em suas várias vertentes, por exemplo, grande parte da galera do universo rock brasileiro ainda parece resistir… Justamente em uma área onde esta gama de recursos pode ser de extrema importância, como temos notado nas novas bandas de maior destaque internacional atualmente. Alguns inspiram até pensamentos retrógrados, algo que posso encarar somente como inocente tradicionalismo, sedentarismo artístico, preconceito, ou mera desinformação.

Claro, não é uma coisa generalizada, existe muita gente fazendo coisas boas e diferentes por aí, porém é evidente que não existe uma banda de rock realmente inovadora em termos de entretenimento de vanguarda no Brasil. Se existe, está muito bem escondida, tentando sobreviver esmagada sob as toneladas de lixo da grande mídia. Eu adoraria ver por aqui algo no nível de profissionalismo em entretenimento de bandas como o Muse, Rammstein, ou NIN, por exemplo. Algo que seja organizado de forma inteligente, que valha cada centavo do ingresso, que realmente cative a platéia em um alto nível de adrenalina e emoção do começo ao fim do espetáculo. Vivemos em um mundo multimídia. A questão toda agora envolve um universo audiovisual. A música brasileira anda extremamente careta… Todavia, estamos em um período inicial de mudanças e é possível perceber um favorável teor de alarde no mercado, que simplesmente estagnou e implodiu. Vamos aguardar e torcer. :)

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MA: Como você imagina o papel que o iPad e outros tablets ou dispositivos touch screen irão ocupar na música nos próximos anos?

Fabio Ribeiro: Eu não saberia explicar exatamente a razão, mas acho que esta interface é, simplesmente, a cara do futuro. É de uma simplicidade tremenda e possui uma flexibilidade inigualável para diversos tipos de aplicação. Não é a toa que o sistema vem funcionando e cativando consumidores desde os tempos dos primeiros celulares com tela sensível ao toque.

Nós tecladistas estamos familiarizados com isso desde o bom e velho Korg Trinity. Estamos muito contentes aqui no estúdio também pois o Sonar X2, o sistema que usamos aqui, acaba de chegar como primeiro DAW profissional em desktop a suportar a tela multi-touch. Melhor que isto, só quando os sistemas de interatividade em 3D se tornarem realmente populares! Eu adoraria interagir com instrumentos musicais tridimensionais que mudam de forma e objetivo no decorrer de uma performance… Então, acho que a coisa tende a crescer mais e mais nos próximos anos. Se alguém por ventura conseguir resistir e deixar de usufruir, certamente ficará no passado.


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7 Comments

  1. Norberto França março 20, 2013 at 1:13 pm - Reply

    Excelente entrevista!!
    O Fábio é uma referencia de profissional da música e mestre nos synths.
    Parabéns!

  2. Rogermusic março 20, 2013 at 7:01 pm - Reply

    Excelente entrevista!

    Olha, é muito bom ver que estamos no caminho certo ao usar o iPad profissionalmente para música.
    E com o desenvolvimento do Hardware tudo tende a melhorar.

    Admirável mundo novo.

  3. Renato março 20, 2013 at 11:41 pm - Reply

    Fábio qual App vc esta usando no video?,meu nome e Renato faço producao fonografica na estacio Rio de Janeiro.

    • musicapps março 22, 2013 at 2:06 am - Reply

      Não sou o Fabio, mas acho que posso responder :) É o sintetizador TC-11 para iPad. Link para a app store: http://goo.gl/rJsH7

  4. Renato março 23, 2013 at 11:47 pm - Reply

    Ohhhh! Valeu Marcus.

  5. Saulo Wanderley março 26, 2013 at 1:35 pm - Reply

    Fábio, aqui o Saulo Wanderley ex-ON&OFF/Dynamite, tudo bem? Como vejo, permaneces antenado com a tecnomúsica, assim como eu que já me tornei um neo ipadista… Visite meu site em http://www.pauta.mus.br – Abraço!

  6. Fabio Ribeiro maio 12, 2013 at 11:53 pm - Reply

    Olá, galera!

    Muito obrigado pelos comentários. É um prazer contribuir para o MusicApps!

    Hehe, o Marcus já respondeu a pergunta do Renato. O TC-11 é um dos raros apps que realmente tomam vantagem completa da tela multi-touch para controle dos recursos do sintetizador, que é profundo e flexível. Eu gostaria muito de ver outros apps com esta aproximação.

    Fala Saulo! Quanto tempo! Muito legal saber que você também veio seguindo esta onda toda. O site está bem legal. Grande abraço!

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