Coluna do Zakka: Uma Tarde com o Figure

Desde seu anúncio oficial, o Figure gerou muita curiosidade e expectativa, assim como todo music app desenvolvido por uma empresa de renome. Nada mais justo: A promessa de timbres incríveis e interfaces interessantes, oriundas do extenso know-how dessas companhias, é sem dúvidas algo que nos interessa bastante.

Assim que o Figure foi lançado, despendi uma tarde inteira testando suas funções e, por consequência, brincando de fazer música. Neste artigo, demonstrarei sete loops concebidos naquela tarde apenas com o novo aplicativo da Propellerhead, instalado em um iPhone.
Todo o áudio foi gravado diretamente do programa para o computador, sem pós-mixagem alguma – só utilizei o PC porque o aplicativo não exporta áudio em sua versão atual.

Exemplo 1 – Beat Eletrônico

Ordem de aparição: Drums, Bass, Lead

Este loop é fruto do meu primeiro contato com o Figure, marcado por grandes doses de espontaneidade e rapidez. É a experiência mais genérica e satisfatória que um usuário terá – após escolher os timbres, basta pressionar o dedo nos pads de instrumentos que o app cuidará do restante.

Figuras rítmicas são geradas automaticamente e o programa não permite que baixo e melodia desafinem – todo projeto segue estritamente uma escala diatônica, permitindo ao máximo sete notas distintas.

Como leves toques artísticos, apenas deixei de tocar o baixo e a lead no final do loop, além de modular o timbre do sintetizador durante o compasso. Também adicionei um pouco de síncope (swing) ao Loop, mexendo na função Shuffle.

Se não tanto pela musicalidade, o resultado impressiona pela qualidade sonora – o programa possui um Compressor (chamado de “Pump”) que deixa a mixagem praticamente finalizada. Nada mal para um projeto feito em apenas cinco minutos.

Set up utilizado:


Exemplo 2 – R&B / Hip-Hop

Ordem de aparição: Drums, Bass, Lead

Ao contrário do primeiro exemplo, este loop teve um objetivo inicial: produzir algo que lembrasse um R&B/Hip-Hop. O drumkit Urban mostrou-se eficaz para a missão. Já o Figure em si, nem tanto: A programação da bateria, menos óbvia do que a do loop anterior, não foi fácil de desenvolver.

Ao apertar o botão da caixa (snare), para ela ser tocada apenas uma vez em um momento específico, o aplicativo por muitas vezes não respeitava o meu timing e inseria o som de acordo com o ciclo de batidas dele. Isso demandou uma série de tentativas para uma missão simples.

O baixo, por sua vez, foi programado em menos de um minuto. Ao escolher o número 7 no recurso “Rhythm”, o programa gerou sete notas por compasso: cinco colcheias e duas colcheias pontuadas. Já a opção “5 Scale Steps” excluiu a quarta e a sétima nota da escala de Dó Menor, ressaltando a qualidade séria e triste da escala.

Esse efeito causado pelas cinco notas restantes é salientado na Lead do loop, gerando uma tonalidade árabe para a melodia. Embora o app esteja tocando 11 notas por compasso, o ataque delas foi praticamente removido ao mexer nas excelentes funções da aba “Tweak” do sintetizador.  Esse fato, aliado à interface do programa, possibilitou uma sensação de continuidade entre as notas da melodia.

Pela falta de uma indicação mais clara da localização de cada nota no Pad de instrumento, o processo de criação da Lead  demandou mais tempo do que o esperado. Apenas uma seta na roda “Scale Steps” indica a nota que está sendo tocada, o que não é suficiente para executar uma melodia mais planejada em poucos takes.

A qualidade sonora agradou mais uma vez, principalmente se considerarmos que esse gênero não é o foco do aplicativo.

Set up utilizado:

Exemplo 3 – Trance-esque

Ordem de aparição: Lead, Bass, Drums

Na tentativa de produzir um loop mais frenético e agressivo, constatei novamente como são excelentes e versáteis os timbres do aplicativo. O Lead Synth “Mouthy Lead” gerou uma textura complexa e orgânica para a melodia. Dessa vez, joguei nas regras do aplicativo: Criei a Lead sem uma ideia prévia,  mantendo o dedo no Pad pelo loop inteiro e deixando o ritmo por conta dele.

A fim de criar uma melodia mais imprevisível, expandi o “Range” da Lead para alternar notas graves com notas muito mais agudas. A aba “Tweak” permitiu-me modular as vogais expressadas pelo sintetizador, deixando o timbre mais dinâmico.

Para contrastar com a grande quantidade de notas e informações da Lead, criei o baixo mais simples possível: Uma sequência de notas iguais em tercinas de semínimas (leia-se “número 6 no Rhythm”), criando um ritmo pulsante e estável. Na aba “Tweak”, ascrescentei distorção ao timbre “Analoguesq” para deixá-lo mais agressivo.

Depois de criar a melodia e o baixo de modo satisfatório, o processo de sequenciar a bateria não foi tão empolgante – minha idéia de inserir um frenético “breakbeat”, repleto de elementos aparecendo em ordem complexa, foi por água abaixo depois de poucas tentativas frustradas. A solução foi contentar-me com uma batida mais simplória, remanescente do famoso “tu-tis-ta-tis” da música eletrônica.

Como já era de se esperar, os timbres caíram muito bem para a sonoridade “Trance” desse exemplo. Em termos de qualidade sonora, o Figure deixa muito pouco a desejar.

Set up utilizado:

Exemplo 4 – Nu-Disco-Groove-Rock

Ordem de aparição:  Drums, Bass, Lead

Após um beat frenético, nada como um loop mais amigável. Decidi produzir algo que o Daft Punk criaria em um dia pouco inspirado.

O fato de que utilizei o kit de bateria Techologic novamente demonstra sua versatilidade – seus timbres modernos estão na linha tênue entre o orgânico e o sintético. A criação do beat foi bem intuitiva, e utilizar o Erase Mode nos Hats – antes contínuos no loop – foi o único trabalho que tive para torná-lo levemente memorável.

O baixo – completamente extraído de canções como Robot Rock do Daft Punk ou Rock It do Subfocus – foi relativamente trabalhoso. Para tocar as notas no ritmo desejado, tive que desabilitar o “Rhythm” automático, o que é penoso considerando a falta de precisão do aplicativo para tarefas mais braçais. Por outro lado, mal precisei ajustar o timbre na aba “Tweak” – o Pad da aba “Pattern” rapidamente definiu o quanto que o baixo soaria como um Vocoder.

A melodia preencheu as lacunas que o baixo deliberadamente deixou no loop. Novamente, tive que usar a função “Erase Mode” para encurtar algumas notas. Transferir a melodia que estava dentro da minha cabeça para o aplicativo exigiu bastante experimentação – certamente, o Figure foi produzido para gerar novas idéias, e não absorver o que inventamos em nossas mentes.

Set up utilizado:

Exemplo 5 – Experimental

Ordem de aparição:  Drums, Bass, Lead

O objetivo deste exemplo era criar algo exótico. Concebi um beat de bateria pouco convencional posicionando os “kicks” de forma com que eles não demarcassem o ritmo – este cargo ficou para as palmas, que me trouxeram um problema inédito: Elas eram muito altas em relação ao restante do kit de bateria.

Como o Figure não permite configurar o volume de cada peça do kit separadamente, tive que apelar para a aba “Tweak”. Ao mexer na variável “Tone” das palmas, o som delas ficou menos evidente com a diminuição das frequências agudas – ainda assim, não era a solução ideal para o caso. É válido ressaltar que os volumes entre as peças são muito bem regulados nos outros kits.

Não tenho nada de interessante a comentar sobre o baixo.

A Lead é o exemplo perfeito de como o aplicativo deve ser usado: Melodia simples, dedo pressionado no pad o tempo inteiro e ritmo automático. Apenas variei as notas após compreender melhor a divisão rítmica estabelecida pelo número 11 no “Rhythm”.

Apesar da questão das palmas escandalosas ter demandado certo tempo, este exemplo foi feito rapidamente, devido à simplicidade de programação da Lead e do baixo.

Set up utilizado:

Exemplo 6 – Comic Punk Rock

Ordem de aparição:  Drums, Bass, Lead

Embora tenha um grande foco na música eletrônica, o Figure também apresenta timbres de bateria acústica e baixo elétrico convencional. Para testá-los da melhor maneira, criei um loop de um gênero que de fato utiliza esses timbres – nesse caso, o Punk Rock.

Infelizmente não há nenhuma Lead disponível com um som de guitarra, o que me deixou sem opção senão tornar o projeto em algo relativamente cômico e esquisito.

De qualquer maneira, os timbres do kit de bateria “Studio” são ótimos e o baixo soa relativamente orgânico – principalmente ao ajustar as modulações da aba “Tweak”.

Set up utilizado:

Exemplo 7 – Algo que lembre Dubstep

Ordem de aparição:  Drums, Bass, Lead

Para finalizar a tarde, não resisti a tentação de produzir um beat que remete à sensação eletrônica do momento. Adicionalmente, repeti timbres utilizados em exemplos anteriores para demonstrar a versatilidade deles.

Uma configuração da Lead na aba “Tweak” criou um ritmo totalmente inesperado para a melodia, que estava para programada para tocar quatro notas de duração igual por compasso.

Propositalmente, deixei a melodia mais baixa do que o restante do loop – os volumes de cada seção podem ser configurados individualmente na aba “Mix”. O baixo, por sua vez, está deliberadamente mais alto do que o recomendado pelo próprio aplicativo.

Set up utilizado:

Divagações do fim da tarde

Intensas quatro horas produzindo – e documentando – estes samples nutriram sentimentos bastantes distintos sobre o Figure. Por um lado, a interface excepcionalmente refinada, os timbres fabulosos e a agilidade com a qual produzi alguns conceitos musicais são aspectos dignos de aplausos.

Por outro lado, suas visíveis limitações me fazem vê-lo como uma oportunidade perdida de ser uma ferramenta completamente profissional. Afinal, a ausência de funções simples como salvar o projeto ou permitir loops maiores (presentes no concorrente iKaossilator) deixa claro que o Figure foi projetado como um “brinquedo que soa muito bem”. Só nos resta aguardar atualizações que resolvam esses óbvios problemas.

No final das contas, mesmo em sua versão atual esse brinquedo é bom demais: Basta lembrar que,  sem ter nenhum contato com o aplicativo anteriormente, produzi todo o conteúdo deste artigo em uma tarde.

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