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Produção Musical: Cover do Justice com o iPad

Guilherme Zakka dezembro 15, 2011 7 Comments »

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Se há um ano eu dissesse que utilizei um iPad para produzir uma música, muita gente – e provavelmente eu – acharia que eu o fiz pelo aspecto lúdico e inusitado que o tablet da Apple proporciona. Pois bem, os tempos mudaram: Hoje utilizo o iPad com o simples propósito de obter um melhor resultado nas gravações. Foi exatamente o caso na produção de um cover da ‘Helix‘, música do duo eletrônico francês Justice.

Quando produzo e arranjo uma versão de uma música já conhecida, sempre utilizo um simples conceito: colocar os meus próprios toques na canção, mantendo o que a faz tão especial.  Helix é uma música com guitarra (ainda que sintetizada) do início ao fim, e não fazia parte dos meus planos deixar o instrumento de fora. Porém, considerando o fato de que a melodia chega a ser executada por três guitarras, seria tranquilamente possível substituir uma delas por outro instrumento. E por que não o Bebot?

Bebot

O aplicativo do simpático robô (que acaba de receber uma atualização interessante, por sinal) ainda é uma das minhas ferramentas favoritas para expressar melodias que tenham slides – nesse aspecto sendo mais responsivo do que o muito mais completo Morphwiz, por exemplo.

Eu bem tentei que dois Bebots harmonizassem a melodia simultaneamente, mas não tente isso em casa: o mundo é um lugar pequeno demais para tanta simpatia! Após esse experimento desastroso, obtive um som interessante com duas guitarras limpas e um Bebot cuidando da melodia: Os timbres não se colidem, apenas se agregam.

Não contente, também utilizei o Bebot para produzir o baixo da música. Embora a linha de baixo possua slides, esse não é o único motivo para eu abusar do robô: Eu realmente acho o timbre interessante, soando até mesmo um pouco orgânico.  Para obter o som de baixo, seleciono o modo PWM no Synth Mode do Bebot e opto por um Cutoff baixo e a Resonance relativamente alta. O mesmo Bebot ainda faz uma ponta como “microfonia de guitarra” em 2:24 e no final da música.

A primeira seção rítmica da música também conta com um clavinete que, embora executado no Thumbjam, é um som oriundo do sintetizador Sytrus, plugin do programa Fruity Loops. Admito que  poderia ter executado esse layer em um controlador midi qualquer ou simplesmente sequenciado as notas. Porém, jamais obteria o mesmo impacto visual: Mostrar as notas sendo tocadas no Thumbjam é aproximadamente oito vezes mais legal (e até didático) do que mostrar uma tela de computador com retângulos. Todavia, eu de fato utilizei um sample do ThumbJam: O piano em 1:31, que é tão sutil que não coube no vídeo.

DM1 Drum Machine

Embora eu utilize uma bateria eletrônica em MIDI para fazer a performance da música, todos os samples de bateria foram retirados do app DM-1 Drum Machine. Novamente, seria possível apenas gravar os samples e sequenciá-los no Pro Tools (software utilizado para toda a produção). A decisão de efetivamente tocar em uma bateria foi meramente visual: começar o vídeo mostrando uma reles tela não se compara a energia de bater em uma caixa de bateria.

Embora a DM1 tenha vários kits como presets, eu raramente acho que os sons deles combinam entre si. Na tela Mixer, é possível misturar sons de diferentes presets, fato crucial para esse projeto. Nesse vídeo, utilizei a caixa do kit Math, o bumbo do kit EPM e chimbau do kit Jazz.

Em 1:47, temos o ápice da música (que não pode ser exatamente chamado de refrão, considerando a estrutura exótica da canção). O arranjo com um Bebot, duas guitarras, baixo e bateria seria suficiente, mas deixava algo a desejar em termos de frequências médio-graves. O baixo distorcido do app Korg iMS-20 (baseado no preset Bass 11) caiu como uma luva – complementa o grave das guitarras e acentua os agudos do baixo. Ele também “suja” um pouco a mixagem de maneira positiva, sem embolar as frequências. Também utilizei o iMS-20 para produzir alguns ruídos no build-up que começa por volta de 1:16. Para produzir tais ruídos, basta mexer nos knobs irresponsavelmente.

iKaossilator

No mesmo build-up, adicionei dois layers do app Korg iKaossilator. Os samples dele, aliados à interface de Pad X-Y, são ótimos para construir build-ups que soem mais “manufaturados” e naturais. Utilizei os samples PumpPad e MotionPad, sempre tocando a tônica (root note) da música. Ainda que o Pad X-Y auxilie muito a determinar a intensidade dos samples, não pude deixar de aplicar o infame Fade-In no Pro Tools, evitando que os layers invadissem a mixagem de modo brusco.

Por volta de 2:40, a música inteira se desconstrói, abrindo espaço para pads atmosféricos e de ataque lento. Foi um prato cheio para utilizar o app Sunrizer, que conta com pads repletos de detalhes e profundidade. Utilizei dois patches baseados nos seguintes presets: The HorizonBig Ahh.

Após o Fade Out, a música retorna com uma melodia carregada de delay e efeitos, em 2:52. Para obter uma sonoridade mais cheia e detalhada, utilizei três layers para tocar a mesma melodia – O Sunrizer com um patch baseado no preset FM Like, o NLog Synthesizer com um patch baseado no preset Hoqetx (ótimo nome, não?) e um terceiro o layer que é a soma desses dois últimos com uma equalização diferenciada.

O projeto foi masterizado com o plugin Izotope Ozone, embora a mixagem já soasse razoavelmente agradável sem masterização. No final das contas, o uso do iPad nessa empreitada foi extremamente satisfatório. A existência de tantos aplicativos distintos abre um leque de possibilidades respeitável e expande as possibilidades de produção musical, com timbres genuinamente profissionais.

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Confira abaixo a lista completa de aplicativos de iPad utilizados na produção:

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* Guilherme Zakka é compositor, guitarrista e publicitário nas horas vagas. (YouTube / Facebook)


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7 Comments

  1. Giusoares dezembro 15, 2011 at 12:12 pm - Reply

    Parabens Guilherme… muito SHOW…
    Criatividade nota 10
    como sempre seus timbres de guitarras estão Perfeito.

  2. @HugoLourenco44 dezembro 15, 2011 at 3:31 pm - Reply

    Parabéns cara.. ficou sensacional! Show mesmo!
    Só tenho uma pergunta, vi no texto que vc sequenciou e mixou a musica com o Pro Tools, mas gostaria de saber o método de entrada do som no computador. Pois vi que vc usa um notebook, então minhas perguntas são:
    Vc ligou a saída p2 do ipad direto no line in (ou mic) do notebook, ou vc usa alguma placa externa para tal conexão? Se for o caso poderia me dizer que placa é esta?
    O som da guitarra foi gravado diretamento no pc, ou passou pelo iPad? e novamente qual o método de entrada da guitarra no PC?
    Desculpe o excesso de perguntas, mas fiquei curioso.
    E mais uma vez PARABÉNS!! Ficou show!
    Abs!

    • Guilherme Zakka dezembro 15, 2011 at 11:48 pm - Reply

      Muito obrigado!

      o iPad foi ligado na interface de áudio Avid Mbox com um cabo P2-RCA (e um adaptador RCA-P10 para entrar na interface). Essa placa se conecta no comptuador através de uma entrada USB.

      A guitarra entra na mesma Avid Mbox em linha (cabo P10 em um canal sem pré-amplificação). Usei o Amplitube 3 para criar o timbre distorcido, pois o computador recebe o sinal da guitarra totalmente seco. Amplitube é um plugin que simula amplificadores de um jeito muito bom. O iPad não participa da gravação das guitarras.

      Obrigado novamente!

  3. Getro dezembro 15, 2011 at 4:47 pm - Reply

    Obra prima! me inspirou a gravar mais no ipad! Parabéns meu amigo!

  4. @paresq dezembro 15, 2011 at 11:41 pm - Reply

    Fantastico, muiiiiito bom bro! … :)

  5. Thiago Rocha dezembro 18, 2011 at 7:44 am - Reply

    Guilherme, eu não conhecia o justice e fui ouvir a versão original do duo, e a sua é muito mais interessante. Em que pese a importância do justice, como disse o amigo ai acima, seus timbres de guitarra são matadores! Meus parabéns.

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