Produção Musical: DM1, Sunrizer, Bebot e SoundPrism para criar uma música somente com o iPad

Para um músico, compor uma canção pode muito bem ser uma obra do acaso. Diversas ideias e conceitos surgem inesperadamente de momentos despretensiosos, ao tocar um instrumento ou mexer em um software apenas por diversão. O fato de se forçar a compor – e a seriedade envolvida nessa situação – é capaz de prejudicar veementemente o processo criativo. Nesse ponto, o iPad é imbatível: utilizar seus apps musicais sempre parece uma brincadeira, independente de o quão profissional o aplicativo de fato seja. E foi assim, nesse clima lúdico, que surgiu a What’s Like, música inteiramente concebida com o iPad.

DM1 Drum Machine

Tudo começou quando eu estava sequenciando alguns beats na Drum Machine DM1. Sua interface elegante e intuitiva gera um workflow muito interessante, que de nada valeria se os samples não fossem extremamente competentes: kits clássicos como a TR-909 e uma respeitável gama de sons experimentais estão inclusos no aplicativo. O fato de eu poder alterar a duração e o pitch de cada elemento de forma rápida também acelera o workflow. Após meia hora utilizando a DM1, obtive um beat que se destacou entre os demais.

Essa batida certamente clamava por uma melodia marcante. Graças ao recentemente implementado modo de Audio Background, pude abrir um aplicativo de sintetizador enquanto escutava o beat sequenciado no DM1. Decidi criar a melodia no Sunrizer por sua alta qualidade sonora e vasto leque de bons presets – e certamente não pelo seu teclado, que é pouco responsivo e deveras impreciso. Um controlador MIDI é quase imprescindível para a melhor experiência com o Sunrizer – apenas não o utilizei pelo conceito de produzir a música somente no iPad. Finalizada a melodia, era a hora de transferir esse trabalho para o computador.

Sintetizador Sunrizer para iPad

A melhor opção para inserir os loops da bateria e da melodia no computador e dar sequência ao trabalho é o Ableton Live – sua interface permite a gravação de novos loops em fluxo constante, sem a necessidade de parar a música após as gravações. Houve, entretanto, uma grande surpresa: O loop da DM1, de 120 BPM, não se encaixava com o compasso do Ableton, de 120 BPM. Sim, eu sei: Isso é matematicamente, fisicamente e humanamente impossível, mas misticamente aconteceu. Ao alterar o compasso do Ableton Live para 119.9 BPM, tudo funcionou como deveria. Cada software com sua matemática.

A partir daí, a criação de novos layers para a composição fluiu naturalmente: obtive um surpreendente timbre de baixo com o Bebot em seu modo PWM, utilizando do recurso Cutoff para elminar boa parte das frequências mais altas. Ainda foram criados dois outros layers com o Bebot: uma espécia de Lead-Resposta para a melodia inicial e uma melodia aguda bastante sutil. Uma vez que os três sons obtidos são bastante distintos, é justo considerar que o Bebot possui certa versatilidade, embora ainda deixe muito a desejar em termos de configurações.

Bebot

Ao sentir a necessidade de inserir um pad na composição, não pude me esquecer do SoundPrism. Sua única e peculiar interface, baseada em terças (intervalos musicais), gera raciocínios interessantes que talvez nunca me ocorressem ao tocar guitarra ou teclado. É esse um dos aspectos mais interessantes de apps do iPad: uma expansão de horizontes musicais através de interfaces nunca antes vistas. Utilizei o timbre de fábrica do app, na minha opinião o melhor disponível.

Todos os layers de iPad foram gravados em linha através da interface de áudio Avid Mbox (MIDI não foi usado em momento algum). Após gravar os samples, “montei” a sequência da música desejada no Ableton Live e realizei alguns ajustes de volume. Embora tenha sido extremamente tentador utilizar compressores e plugins para aprimorar os timbres originais e a mixagem em geral, propositalmente os deixei exatamente como soam no iPad. Dessa maneira, podemos analisar melhor o verdadeiro potencial desses aplicativos.

SoundPrism para iOS

Tudo o que você ouve no vídeo é também o que você vê (exceto alguns takes de voz, filmados posteriormente). O processo de looping durou por volta de 15 a 20 minutos, tempo que poderia ser mais curto se eu usasse um controlador midi para tocar o Sunrizer e se o Bebot possuísse um simples fader de volume, por exemplo. Por outro lado, o processo foi agilizado ao utilizar o Korg nanoPad para iniciar e terminar as gravações dos loops no Ableton Live.

No final das contas, a integração do iPad com o computador (e até os controladores) ainda se mostra bastante necessária para produções musicais mais elaboradas. Se por um lado os apps são fantásticos e inspiradores, ainda sinto que não estou próximo de realizar um vídeo inteiro desses apenas com o tablet da Apple. Todavia, estamos apenas começando: com menos de dois anos de existência, o iPad é o instrumentos musical mais recente do universo – e certamente um dos mais divertidos.

* Guilherme Zakka é compositor, guitarrista e publicitário nas horas vagas. (YouTube / Facebook)

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