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Curta brasileiro tem trilha sonora totalmente produzida em um único app musical para iPad

Marcus Padrini março 24, 2011 1 Comment »

Ninguém mais duvida que apps musicais, iPhones e iPads estão sendo utilizados por diversos profissionais das artes e da música ao redor do mundo. Porém, o que você diria sobre produzir toda a trilha sonora de um curta metragem usando o iPad e um único aplicativo musical? E se este app for tão original e pouco usual quanto esta idéia? Este é o caso do curta Julie, Agosto, Setembro, produção independente dirigida por Jarleo Batista, lançado na semana passada em Goiânia.

Julie, Agosto, Setembro, feito em francês, conta a experiência de uma jovem suíça que se muda para capital de Goiás e começa a compreender pouco a pouco a cidade e também a si mesma. Ainda não pude assistir o filme, que será exibido em uma série de festivais pelo país. Porém, o teaser, a sinopse e a fotografia me deixaram bastante curioso! A trilha sonora ficou por conta do designer e produtor cultural Victor L. Pontes, que decidiu fazer todo o trabalho no iPad, com o app SoundPrism.

Em entrevista ao MusicApps, Victor falou um pouco sobre a produção e também sobre a ideia inusitada de compor e produzir a trilha no tablet. Ele também cedeu, em primeira mão, trechos da trilha em um teaser do filme, que você conhece agora.

Confira a nossa conversa com o criador da trilha de Julie, Agosto, Setembro.

MA: Para contextualizar, poderia nos falar um pouco sobre o seu passado profissional? Vi que você é designer e produtor cultural. Como você foi parar na confecção da trilha sonora de filmes? Já havia feito o trabalho em outras produções?

Victor Pontes: Sempre gostei de produzir e fui produzindo com o que tinha em cada época, mas com o tempo fui me interessando por poesia e música. Na poesia acabei me apaixonando por poesia concreta, extremamente verbovocovisual do grupo Noigandres. Na música, com 15 anos tive uma banda chamada Bananas da República de Arake, bem… pelo nome deu para ver que não foi para frente… E tive outra banda quando estava estudando John Cage, Tom Zé, Frank Zappa, e bandas brasileiras como Cidadão Instigado e outras coisas bem experimentais.

Na faculdade (de Design Gráfico) fiz a trilha da vinheta de abertura do Festival Perro Loco, que cuidei da produção cultural-musical e, por um momento, acreditei que iria virar produtor cultural-musical. Um ano depois montei meu estúdio de design com dois sócios, chamado Zebrabold, que deu muito certo e está crescendo.

Também fiz outro trabalho, em parceria com o amigo Nícolas Garcia,  o poema-vídeo chamado lág rimas, com a animação e edição do Nícolas, poema e efeitos sonoros de minha autoria, estes últimos feitos no GarageBand para o Mac.

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MA: Como surgiu a ideia de produzir a trilha do curta utilizando somente o iPad e o app SoundPrism? Conte um pouco sobre como o iPad foi parar na produção do filme.

Victor Pontes: O Zebrabold hoje fica num casarão chamado Fábrica Cultura Coletiva, que tem diversas empresas, como a Panacéia Filmes, que encabeçou o curta. Converso muito com Jarleo Barbosa, que dirigiu o filme, e estava bem empolgado quando comprei meu iPad em novembro (2010). Antes mesmo já conhecia o fantástico SoundPrism, com interface desenvolvida pelo grande designer Erik Spiekermann. Já havia criado algumas linhas com o SoundPrism e fui mostrar no sentido de curiosidade para o Jarleo, que é músico. Logo que ele escutou disse: “Cara to fazendo um filme e esse som é perfeito para ele, não quer desenvolver toda trilha não?”.

Topei na hora, claro! Sempre quis desenvolver um trabalho do tipo. Fiquei um pouco receoso de criar para um filme que não tinha visto, mas quando o vi sem som, sem nada, mesmo assim achei maravilhoso. Tive três semanas para desenvolver a trilha, junto com os primeiros cortes do filme. O Jarleo e eu dividimos o filme em momentos, e conversamos sobre o sentimento que cada um deveria passar, assim fui criando cada ponto separadamente, tentando criar mais um clima, simples, modular e até um pouco infantil-ingênuo.

MA: Você trabalhou com a versão MIDI (que ainda nem é oficial) ou utilizou os sons do próprio app?

Victor Pontes: Exportei as gravações direto do aplicativo que tem a opção de enviar por e-mail as gravações. Não usei a versão MIDI. O interessante do SoundPrism é exatamente isso, ter um som próprio, uma interface própria e uma lógica própria.

SoundPrism para iOS

MA: Vi que, em outra entrevista (blog da lista), você disse que não se trata da moda do iPad, mas sim do resultado obtido com a ferramenta. O que você e o diretor viram de especial no SoundPrism e no iPad para que eles produzissem o clima que o curta precisava?

Victor Pontes: Desenvolvemos no iPad porque o som era perfeito para trilha, não porque era simplesmente um iPad. É claro que tem o hype, mas a qualidade e coerência do som vieram primeiro.

O SoundPrism era perfeito pois trabalha com sons modulares, criando uma sensação de ambiente. Outra questão é que o filme tem uma ferramenta poética do foco, tudo vai se desfocando cada vez mais. O SoundPrism passava isso com seu som vibrante e ambiental. O curta tem uma questão ingênua e simples e as linhas que criei foram todas baseadas nisso: repetição e simplicidade. Jamais usaria o iPad só pelo iPad, isso seria bobeira, mas claro que me encanto com um produto que jogo, estudo, trabalho e faço trilhas. E claro que me empolguei um pouco em talvez fazer a primeira trilha de um curta com iPad! (gargalhadas) Alguém aí poderia me confirmar se é a primeira?!

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MA: Você utiliza outros apps musicais para o tablet? Quais?

Victor Pontes: Uso o Sir Sampleton, ModAxis, Mugician, abcdefgh (que é de poesia visual-interativa) e outros de samples. Sempre estou baixando novos para testar, pois estou com um projeto de livro digital interativo. O Gorillaz gravou um disco e soltou os apps que usaram. Lá tem muita coisa boa.

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MA: Com a chegada do iPad 2, agora trazendo câmera para fazer filmes em HD e app para edição do vídeo, você acha que ele poderá ser uma ferramenta legal também para a produção de vídeo, nem que seja para auxiliar na organização das ideias?

Victor Pontes: De forma alguma. As câmeras do iPad 2 são para vídeo-conferência. Uma coisa que imagino (dica aí desenvolvedores) é para realidade aumentada. Imagina que genial imprimir imagens de móveis e você montar sua própria sala com móveis projetados através de realidade aumentada, isso simplesmente movendo papeizinhos? Imagino que seja para isso!

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Agradecemos ao Victor pela entrevista e também gostaríamos de parabenizá-lo pela iniciativa e pelo resultado do trabalho, do qual conseguimos conhecer um pouco. O curta Julie, Agosto, Setembro deverá estar em cartaz em uma série de festivais de cinema pelo país. Pelo menos por tudo que já li e noticiei, acredito que ele deva ser realmente o primeiro caso de curta a ter sua trilha completamente produzida em um iPad, ainda mais em um único app. Ainda mais no SoundPrism.

Por falar nele, o aplicativo da Audanika deverá receber sua versão PRO ainda esta semana, agora com compatibilidade MIDI wi-fi e uma implementação toda especial do recurso.

[* Com informações do Blog da Lista]


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